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20/5/2010-- Carta ao 2º Seminário de Comunicação e Cultura Popular do Contestado

Carta ao 2º Seminário de Comunicação e Cultura Popular do Contestado

 

Florianópolis, 22 de maio de 2010.

 

Companheiras e companheiros,

 

Sirva o fato de escrever este simples texto para vocês, como desculpa da nossa ausência em um momento decisivo para os Meios de Comunicação Alternativa de Santa Catarina. Sirva também para explicar que não estou aí, já que a modificação de data do encontro coincidiu com o lançamento do filme De Um Golpe, Honduras, por mim escrito, entre outras responsabilidades, que será hoje às 19:30, no prédio da Rádio Comunitária do Campeche, colega alternativa que há 6 anos informa ao povo de Florianópolis.

 

Iniciando a contribuição quero me referir ao tema central do encontro: “A Soberania Comunicacional, os movimentos e organizações sociais na construção de meios alternativos e de redes populares de comunicação”.  O tema é enorme e urgente. As possibilidades de aumentar e tornar mais transparente a verdade e a visão de mundo das gentes trabalhadoras, pobres, excluídas, discriminadas são crescentes. Cada vez mais pessoas e movimentos sociais, esgotadas pela mídia monopólica nacional e transnacional, usam diversas ferramentas, sendo a internet a mais comum, mas, a cultura e suas expressões também ocupam um lugar determinante. A informação popular supõe não só dar uma versão formal de um fato social, político, também supõe assumir a identidade de povo, com a cor, a forma, a língua e os costumes que dão a esse povo personalidade especial. Sugere isso que chamamos enfaticamente: NECESSIDADE DE UM JORNALISMO PARCIAL. A gente fala de parcial, não de mentiroso ou interesseiro. Não de oportunista ou alinhado. Quando fala de Jornalismo Parcial entende duas coisas, um jornalismo e uma comunicação a serviço dos que não têm voz, e uma comunicação entre e para as pessoas de uma classe social em combate com os ricos: A Classe Pobre Trabalhadora e Desempregada.

 

Neste encontro se lança a Rádio Web Cidadania. Tive o privilégio de ser o primeiro jornalista a escutar os ensaios desta nova ferramenta. Com o passar do tempo a comunidade do Contestado, do Estado todo e naturalmente, toda e qualquer pessoa que tenha o endereço eletrônico poderá se servir gratuitamente, através de um computador, de uma caixa de som ou de um “gato” que transfira o som a qualquer poste, à outra versão da comunicação, não a comunicação dos ricos, dos poderosos. Que diferente se torna a música, o vídeo, o comentário, quando fala de algo que verdadeiramente nos pertence, e não tem sido imposto desde os poderes dos industriais, dos donos de todo, dos exploradores. Bem-vinda seja a Rádio Web Contestado Cidadania! Mais uma ferramenta, mais uma foice, mais uma pedra, mais um punho em alto. Um aplauso imenso para ela.

 

A querida companheira Elaine Tavares, tanto na Revista Pobres & Nojentas, como na Rádio Campeche, inclusive no seu trabalho no Instituto de Estudos Latino-americanos, tem atuado como poucas pessoas na direção da Soberania Comunicacional. Dessa Soberania falaremos unas linhas. Ela implica em assumir claramente o direito dos povos e suas gentes a se informar do que lhes é importante em todas as áreas da vida, da terra. A Soberania Comunicacional supõe acrescentar esta categoria às outras categorias imprescindíveis para o desenvolvimento da liberdade, da justiça, edas igualdades sociais: Soberania Energética, Soberania Alimentar, Soberania Territorial, etc. Não há como sustentar essas autonomias, essas soberanias de forma cega, oculta, incomunicada, alienada. Uma comunidade, um povo, ostenta soberania se a compreende como um valor fundamental da sua autodeterminação, do seu desenvolvimento, da sua realização. Essa soberania precisa ser levantada em todas as instâncias de representação como os parlamentos, mas, sobretudo, nas instâncias da organização popular participativa. A soberania comunicacional se expressará melhor nos Parlamentos e Sindicatos, se os meios de comunicação popular impulsionam, pressionam e obrigam a que isso aconteça ainda nas instâncias algo vencidas por conta do desenvolvimento de novas formas organizacionais, tais como as Assembléias Populares e Constituintes nos novos modelos de relação entre as pessoas. O Poder Popular precisa dessa Soberania Comunicacional para constituir-se.

 

A respeito do nosso querido Portal Desacato – www.desacato.info – ele surge da necessidade de insistir em duas questões fundamentais: Reafirmar a Internacionalidade das Lutas Populares e Contribuir com os processos independentistas que ressoam em Nossa América e no mundo. Nestes quatro anos editoriais as lutas do País Basco têm se confundido com as lutas dos moradores do Rio de Janeiro, a Resistência do Povo Hondurenho com as conversas delicadas das nossas escritoras nativas. Nestes 60 dias Desacato está em descanso porque no dia 3 de julho será lançado o novo formato que incluirá a questão do nosso Estado, e um espaço mais atraente, moderno, rápido e completo de busca, aproveitando a transversalidade do veículo, com mais artigos, mais companheiros jornalistas, escritores, educadores, e mais países em volta. Inclusive com destaque especial para a cultura popular e a produção alternativa. Esperamos que lhes agrade o novo Desacato e que seja uma ferramenta útil para a região do Oeste e para a parceria que precisamos ampliar a cada dia com a AGECON.

 

Finalmente, quero me referir à emergente necessidade de construir a Rede Catarinense de Notícias Populares. O monopólio empresarial da rede RBS e a dinâmica dos movimentos sociais organizados ou espontâneos exigem uma decisão corajosa que brinde amplificação à construção dos novos modelos de sociedade baseados na justiça e na autonomia. E também, exigem mais formas de sustentabilidade estrutural dos meios autônomos e populares. Isso tudo pede que se debata de prontidão a construção da Rede Catarinense de Notícias Populares. A gangorra à qual a falta de recursos nos submete, faz com que nem sempre publiquemos, editemos ou usemos as freqüências de comunicação. Mais ainda, não nos permite o atual estado de coisas amplificar as lutas com a força que se obtém na unidade de agendas fundamentais de informação. Há uma necessidade de opor-se ao monopólio maldito que cerceia e aliena à sociedade catarinense. Para se opor ao tentáculo RBS há que se aumentar a possibilidade de interferência comunicacional e proposicional, somada a presença física efetiva onde se necessita multiplicar a voz dos trabalhadores, dos pobres, dos discriminados.

 

Imagino também que está na hora de encampar essa Rede e, além do mais, propiciar e organizar uma campanha efetiva contra o monopólio da informação neste Estado, que anime a mobilização em busca da liberdade de se comunicar massivamente que todas as pessoas precisam. E também, que crie consciência do risco presente e futuro de manter esse monopólio como ditador da verdade oficial da burguesia. Como modelador do pensamento, dos gostos e da identidade artificial dos catarinenses.

 

Confio em que com a vontade diretriz da AGECON, e a soma de vontades de todos os meios alternativos do Estado, que além das pontualidades locais o desejem vivamente, essa Rede possa iniciar sua caminhada, sua luta vitoriosa, ainda este ano.

 

Um abraço a tod@s, desde Meimbipe, Capital do Estado (mal chamada de Florianópolis), em especial para o irmão Jilson e para dona Fabi.

 

Raul Fitipaldi

Portal Desacato

 

 

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