12/6/2010-- Contra a vida, não há argumentos
Por Luiz Ricardo Leitão*
Há uma cena no célebre documentário Fahrenheit 9/11, do diretor estadunidense Michael Moore, que até hoje não me sai da cabeça. Refiro-me precisamente àquela visita do abestado George W. Bush a uma escola infantil, no exato instante em que se consuma o atentado contra as Torres Gêmeas. As imagens que registram a reação quase disléxica do presidente ianque são, de fato, impressionantes. Ele parece estar virtualmente catatônico, em meio à leitura de uma história para as crianças que o rodeiam, enquanto os assessores e a segurança o informam dos insólitos acontecimentos que se sucedem “lá fora”, naquele misterioso e insondável “mundo dos adultos”.
A (falta de) atitude de Bush não impediu que este se reelegesse à Casa Branca em 2004, após derrotar o candidato democrata John Kerry por escassa margem de votos (50,7% a 48,3%), mas foi, sem dúvida, um fator a mais a influir na vitória de Barack Obama em 2009. É claro que não pretendo, aqui, igualar os dois síndicos mais recentes do Império... O bom mulato de Chicago em nada se assemelha ao caubói mimado do Texas; Obama é articulado, possui uma retórica bastante sedutora e exibe sinais inequívocos de inteligência em suas intervenções públicas, dotes que, bem o sabemos, Bush filho jamais logrou cultivar.
Contudo, em se tratando do Tio Sam, a história costuma repetir-se uma ou mais vezes, ora como farsa, ora como tragédia – e sempre ao custo de muitas vidas para os povos de todo o planeta. É o que penso cá com meus botões, ao ler as notícias sobre o estúpido e inominável ataque das forças militares israelenses à frota humanitária que pretendia furar o bloqueio marítimo imposto pelo regime fascista de Israel aos palestinos que habitam a Faixa de Gaza. O que fez o bom mulato após ser informado da agressão? Sabemos que ele não se refugiou em nenhum Clube de Leitura escolar, para ler ou ouvir o clássico Onde vivem os monstros, de que tanto gosta. Mas sua reação poderia estar no próximo filme de Michael Moore, como um marco da desfaçatez e fragilidade atual do Império: o bom mulato incumbiu sua cadela de guarda Hillary Clinton de jogar uma nuvem de fumaça na mídia, acusando a suposta presença de terríveis “terroristas” nas embarcações que se dirigiam a Gaza, enquanto ele próprio saía de foco e se dirigia à região afetada pelo vazamento de óleo provocado pela empresa BP no Golfo do México.
O festival de retórica presidencial já não surte o mesmo efeito dos tempos de campanha. O governo dos EUA, não importa o perfil do síndico de plantão, tornou-se um mero agente das poderosas corporações de petróleo e armas, vagando como nau perdida nesse imenso e ignoto oceano conhecido como Mercado. Hoje, contudo, há novas correntes nessa rota – e uma delas é, sem dúvida, a sinuosa China, a maior credora de Tio Sam no mundo e, decerto, a grande fiadora do futuro ianque neste planeta.
Israel continua empenhado em valer-se das armas para expandir seu território, julgando ser a força seu único meio para tal propósito, como fizeram as nações imperialistas no início do século XX. A Guerra Fria, porém, já terminou – e novos atores reclamam seu espaço no palco global. O ditado também mudou: contra a vida, Mr. Obama, não há argumentos. A perigosa aliança firmada com Israel é um feitiço que hoje ameaça o mestre dos feiticeiros: o conflito no Oriente Médio não será superado pelo poder militar nem por ameaças de retaliação, conforme tão bem preconizam as gestões diplomáticas postuladas por países como Brasil e Turquia.
Até quem tratou de demonizar o Irã em suas colunas midiáticas anda hoje bem mais reflexivo. Afinal, ninguém ignora que, como dizem os cubanos, uma mentira pode correr cem anos, que a verdade a alcança em um único dia. O cinismo de Netanyahu, que denuncia em tom paranoico uma “conspiração internacional” antijudaica, não encontra eco no pensamento dos jovens judeus estadunidenses, que em pesquisa de 2003 revelam sentir-se cada vez mais distantes do sionismo e do próprio Estado de Israel. Por mais que o premier israelense ainda creia na linguagem da força, os ventos parecem soprar em outra direção – e a insistência nessa opção só fará aumentar o isolamento de Tel Aviv e Washington. Embargos, bombas e bloqueios causas mortes e sequelas, mas não logram silenciar os povos, como nos prova a resistência heroica da Palestina ou a persistência serena e inabalável de Cuba em sua via autônoma e soberana de construção do socialismo.
* Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa: Poeta da Vila, Cronista do Brasil (lançado em 2009 pela Expressão Popular) e alimentador da AGECON no Rio de Janeiro. |