08/05/2012 - Clima e Meio Ambiente - Mundo

Quem cuida do cuidador?

As primeiras e mais ancestrais cuidadoras são nossas mães e avós que desde o início da humanidade cuidaram de sua prole. Caso contrário, não estaríamos  aqui escrevendo  sobre o cuidado.  Neste contexto queremos mencionar duas figuras, verdadeiros arquétipos do cuidado: o médico suiço Albert Schweitzer (1875-1965) e a enfermeira inglesa Forence Nightingale (1820-1910).

 

Albert Schweitzer era exímio exegeta bíblico e um dos maiores concertistas de Bach de seu tempo.  Aos trinta anos já com fama em toda a Europa, largou tudo, estudou medicina para, no espírito das benaventuranças de Jesus, cuidar dos mais pobres dos pobres (os hansenianos) em Lambarene no Gabão. Numa de suas cartas  confessa explicitamente: ”o que precisamos não é de missionários que queiram converter os africanos, mas de pessoas dispostas a fazer aos pobres o que deve ser feito, se é que o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuem algum valor. Minha vida não está nem na arte nem na ciência mas em ser um simples ser humano que no espírito de Jesus faz algo por insignificante que seja”. Foi dos primeiros a ganhar o Prêmio Nobel da Paz.

 

Por cerca de quarenta anos viveu e trabalhou num hospital por ele construido com o dinheiro de tournés de concertos de Bach. Nas poucas horas vagas, teve tempo para escrever vasta obra centrada na ética do cuidado e do respeito pela vida. Formulou assim seu lema: “a ética é a responsabilidade ilimitada por tudo o que existe e vive”. Numa outra obra  assevera:”a idéia chave do bem consiste em conservar a vida, desenvolvê-la e elevá-la ao mais alto valor; o mal consiste em destruir a vida, prejudicá-la e impedir que se desenvolvaplenamente; este é o princípio necessário, universal e absoluto da ética”.                       

 

Outro arquétipo do cuidado foi a enfermeira inglesa Florence Nightingale. Humanista e profundamente religiosa, decidiu melhorar os padrões da enfermagem em seu país. Em 1854 com outras 28 companheiras Florence se deslocou para  campo de guerra na Criméia da Turquia, onde se empregavam bombas de fragmentação que produziam muitos feridos. Aplicando no hospital militar, a prática do rigoroso cuidado, em seis meses reduziu de 42% para 2% o número de mortos. Esse sucesso granjeou-lhe notoriedade universal.

 

De volta a seu país e depois nos EUA, criou uma rede hospitalar que aplicava ocuidado como eixo  norteador da enfermagem e como sua ética natural. Florence Nightingale continua  a ser  uma referência inspiradora. O operador da saúde é por essência um curador. Cuida dos outros como missão ecomo opção de vida. Mas quem cuida do cuidador, título de um belo livro do médico Dr. Eugênio Paes Campos (Vozes 2005)?

 

Partimos do fato de que o ser humano é, por sua natureza e essência, um ser de cuidado. Sente a predisposição de cuidar e a necessidade de ser ele também cuidado. Cuidar e ser cuidado são existenciais (estruturas permanentes) e indissociáveis.

 

É notório que o cuidar é muito exigente e pode levar o cuidador ao estresse. Especialmente se o cuidado constitui, como deve ser, não um ato esporádico mas uma atitude permanente e consciente. Somos limitados, sujeitos ao cansaço e à vivência de pequenos fracasos e decepções. Sentimo-nos sós.

 

Precisamos ser cuidados, caso contrário, nossa vontade de cuidar se enfraquece. Que fazer então?

Logicamente, cada pessoa precisa enfrentar com sentido de resiliência (saber dar a volta por cima) esta situação dolorosa. Mas esse esforço não substitui o desejo de ser cuidado. É então que a comunidade do cuidado, os demais operadores de saúde, médicos e o corpo de enfermagem devem entrar em ação.

 

O enfermeiro ou a enfermeira, o médico e a médica sentem necessidade de seremtambém cuidados. Precisam se sentir acolhidos e revitalizados, exatamente, como as mães fazem com seus filhos e filhas. Outras vezes sentem necessidade do cuidado como suporte, sustentação e proteção, coisa que o pai proporciona a seus filhos e filhas.

 

Cria-se então o que o  pediatra  R. Winnicott chamava de “holding”, quer dizer, aquele conjunto de cuidados e fatores de animação que reforçam o estímulo para continuarem no cuidado para com pacientes.Quando este espírito de cuidado reina, surgem relações horizontais de confiança e de mútua cooperação, se superam os constrangimentos,  nascidos da necessidade de ser cuidado..

 

Feliz é o hospital  e mais felizes  são ainda aqueles pacientes que podem contar com um grupo de cuidadores. Já não haverá “prescrevedores” de receitas e aplicadores de fórmulas mas “cuidadores” de vidas enfermas que buscam saúde. A boa energia que se irradia do cuidado corrobora na cura.

 

Por Leonardo Boff – Teólogo e Filósofo

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14/03/2012 - Clima e Meio Ambiente - Santa Catarina

Atingidos por barragens acampam na Eletrosul, em Florianópolis

Centenas de integrantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) protestam nesta manhã (13/03) na sede da Eletrosul, em Florianópolis, onde montaram acampamento. As manifestações acontecem em diversas capitais brasileiras em uma ação global que marca o 14 de março: Dia internacional de luta contra as barragens. Em Santa Catarina o MAB também ocupa desde esta madrugada o canteiro de obras da usina de Garibaldi, na serra catarinense.

 

Os atingidos por barragens protestam contra o atual modelo energético brasileiro, contra as tentativas de privatização da água e da energia em curso no país, além de reivindicarem a garantia de direitos para as famílias atingidas por barragens e para os trabalhadores do setor elétrico.

 

Para Indianara Reis, da coordenação do MAB, “o modelo energético adotado no Brasil tem sido prejudicial aos atingidos por barragens, aos trabalhadores do setor elétrico e também a toda a população brasileira que paga uma das tarifas de energia mais caras do mundo”.

 

Além de denunciar para a sociedade as contradições do setor elétrico, o MAB cobra do Governo Federal uma política de tratamento para as populações atingidas por barragens, pois até hoje mais de um milhão de pessoas já foram expulsas de suas terras devido à construção de hidrelétricas. Estima-se que 70% das famílias não receberam nenhum tipo de indenização. Por outro lado, 80% do recurso para as construção das hidrelétricas é financiado com recurso público pelo BNDES.

 

A Jornada Nacional de Lutas também cobra uma postura do governo pela renovação das concessões do setor elétrico que vencem a partir de 2015. De acordo com o Movimento, a renovação das concessões é um caminho que evitará a privatização ainda maior das usinas, linhas de transmissão e distribuidoras de energia elétrica. Caso o Governo não opte por renovar as concessões, o processo se dará a partir de abertura de novas licitações, o que representa um nova onda de privatizações.

 

Em Florianópolis, o MAB já solicitou uma audiência com o Incra e com o governador do estado, Raimundo Colombo. Esta agendada para esta tarde, às 16 horas, uma audiência com a diretoria da Eletrosul.

 

Mais informações: http://www.mabnacional.org.br

 

Contato de imprensa: (49) 8862.3379

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29/01/2012 - Clima e Meio Ambiente - Mundo

Desenvolvimento sustentável:crítica ao modelo padrão

Os documentos oficiais da ONU e também o atual borrador para a Rio+20 encamparam o modelo padrão de desenvolvimento sustentável: deve ser economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto. É o famoso tripé chamado de Triple Botton Line (a linha das três pilastras), criado em 1990 pelo britânico John Elkington, fundador da ONG SustainAbility. Esse modelo não resiste a uma crítica séria.

 

Desenvolvimento economicamente viável: Na linguagem política dos governos e das empresas, desenvolvimento equivale ao Produto Interno Bruto (PIB). Ai da empresa e do pais que não ostentem taxas positivas de crescimento anuais! Entram em crise ou em recessão com conseqüente diminuição do consumo e geração de desemprego: no mundo dos negócios, o negócio é ganhar dinheiro, com o menor investimento possível, com a máxima rentabilidade possível, com a concorrência mais forte possível e no menor tempo  possível.

 

Quando falamos aqui de desenvolvimento não é qualquer um, mas o realmente existente que é aquele industrialista/capitalista/consumista. Este é antropocêntrico,  contraditório e equivocado. Explico-me.

 

É antropocêntrico  pois está centrado somente no ser humano, como se não existisse a comunidade de vida (flora e fauna e outros organismos vivos) que também precisa da biosfera e demanda igualmente sustentabilidade. É contraditório, pois, desenvolvimento e sustentabilidade obedecem a lógicas que se contrapõem. O desenvolvimento realmente existente é linear, crescente, explora a natureza e privilegia a acumulação privada. É a economia política de viés capitalista. A categoria sustentabilidade, ao contrário, provém das ciências da vida e da ecologia, cuja lógica é circular e includente. Representa a tendência dos ecossisstemas ao equilíbrio dinâmico, à interdependência e à  cooperação de todos com todos. Como se depreende: são lógicas que se auto-negam: uma privilegia o indivíduo, a outra o coletivo, uma enfatiza a competição, a outra a cooperação, uma a evolução do mais apto, a outra a co-evolução de todos interconectados.

 

É equivocado, porque alega que a pobreza é causa da degradação ecológica. Portanto: quanto menos pobreza, mais desenvolvimento sustentável haveria e menos degradação, o que é equivocado. Analisando, porém, criticamente, as causas reais da pobreza e da degradação da natureza, vê-se que resultam, não exclusiva, mas principalmente, do tipo de desenvolvimento praticado. É ele que produz degradação, pois delapida a natureza, paga baixos salários e gera assim pobreza.

 

A expressão desenvolvimento sustentável representa uma armadilha do sistema imperante: assume os termos da ecologia (sustentabilidade) para esvaziá-los. Assume o ideal da economia (crescimento)   mascarando, a pobreza que ele mesmo   produz.

 

Socialmente justo: se há uma coisa que o atual desenvolvimento industrial/capitalista não pode dizer de si mesmo é que seja socialmente justo. Se assim fosse não haveria 1,4 bilhões de famintos no mundo e a maioria das nações na pobreza. Fiquemos apenas com o caso do Brasil. O Atlas Social do Brasil de 2010 (IPEA) refere que cinco mil famílias controlam 46% do PIB. O governo repassa anualmente 125  bihões de reais ao sistema financeiro para pagar com juros os empréstimos feitos e aplica apenas 40 bilhões para os programas sociais que beneficiam as grandes maiorias pobres Tudo isso denuncia a falsidade da retórica de um desenvolvimento socialmente justo, impossível dentro do atual paradigma econômico.

 

Ambientalmente correto: O atual tipo de desenvolvimento se faz movendo uma guerra irrefreável contra Gaia, arrancando dela tudo o que lhe for útil e objeto de lucro, especialmente, para aquelas minorias que controlam o processo. Em menos de quarenta anos, segundo o Índice Planeta Vivo da ONU (2010) a biodiversidade global sofreu uma queda de 30%. Apenas de 1998 para cá houve um salto de 35% nas emissões de gases de efeito estufa. Ao invés de falarmos nos limites do crescimento melhor faríamos  falar nos limites da agressão à Terra.

 

Em conclusão, o modelo padrão de desenvolvimento que se quer sustentável, é retórico.  Aqui e acolá se verificam avanços na produção de baixo carbono, na utilização de energias alternativas, no reflorestamento de regiões degradadas e na criação de  melhores sumidouros de dejetos. Mas  reparemos bem: tudo é realizado desde que não se afetem os lucros, nem se enfraqueça a competição. Aqui a utilização da expressão “desenvolvimento sustentável”possui uma significação política importante: representa uma maneira hábil de desviar a atenção para a mudança necessária de paradigma econômico se quisermos uma real sustentabilidade. Dentro do atual, a sustentabilidade é ou localizada  ou inexistente.

 

Por Leonardo Boff – Escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação no Brasil. Foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. É respeitado pela sua história de defesa pelas causas sociais e atualmente debate também questões ambientais.

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28/11/2011 - Clima e Meio Ambiente - Mundo

Despertar a dimensão xamânica

A categoria sustentabilidade, tomada em seu sentido amplo e não apenas reduzida ao desenvolvimento, significa toda a ação que visa a manter os seres na existência porque tem  direito de coexistir conosco e só a partir desta convivência utilizamos com sobriedade e respeito uma porção deles para atender nossas necessidades e preservando-os também para as futuras gerações. Dentro deste conceito cabe também o universo. Sabemos hoje pela nova cosmologia que somos feitos de pó das estrelas e somos sustentados e atravessados pela inominável Energia de Fundo que tudo alimenta e que se desdobra nas quatro forças – a gravitacional, a eletromagnética, a nuclear fraca e forte – que, agindo sempre juntas, nos mantém assim como somos.  

 

Como seres conscientes e inteligentes temos o nosso lugar  e nossa função dentro do processo cosmogênico. Se  não somos o centro de tudo, seguramente, somos uma daquelas pontas avançadas pelas quais o universo se volta sobre si mesmo, vale dizer, se torna consciente. O princípio andrópico fraco nos concede dizer que para sermos o que somos,  todos as energias e processos da evolução se organizaram de forma tão articulada e sutil que permitiram o nosso surgimento, caso contrário não estaria aqui  escrevendo agora.

 

Através de nós, o universo e a  Terra se veem e se contemplam a si mesmos. A vista surgiu há 600 milhões de anos. Até lá a Terra era cega. O céu profundo e estrelado, as cataratas do Iguaçu, onde escrevo agora, o verdor das florestas, aqui ao lado, não podiam ser vistos. Pela nossa vista a Terra e o universo podem ver toda essa indescritível beleza.

 

Os povos originários,  dos andinos aos samis do Ártico, se sentiam unidos ao universo, como irmãos e irmãs das estrelas, formando uma grande família cósmica. Nós perdemos esse sentimento de mútua pertença. Sentiam que forças cósmicas equilibravam o curso de todos os seres e atuavam em sua interioridade. Viver consoante estas energias universais era levar uma  vida sustentável, serena  e cheia de sentido.

 

Sabemos pela física quântica  que a consciência e o mundo material estão conectados e a maneira que um cientista escolhe para fazer a sua observação, afeta o objeto observado. Observador e objeto observado se encontram indissoluvelmente ligados. Dai que a inclusão da consciência, nas teorias científicas e na própria realidade do cosmos, é um dado já assimilado por grande parte da comunidade científica. Formamos, efetivamente, um todo complexo e diversificado.

São conhecidas as figuras dos xamãs, tão presentes no mundo antigo e que hoje estão voltando com renovado vigor como o tem mostrado o físico quântico J. Drouot em se livro  O Xamã, o Físico e o Místico (Record 2002) que tive a honra de prefaciar. O xamã vive um estado de consciência singular que o faz  entrar em contato íntimo com  as energias cósmicas. Ele entende o chamados das montanhas, dos lagos, das florestas, dos animais e, das estrelas e dos outros. Sabe conduzir tais energias para curar e harmonizar o ser humano com o todo.

 

Em cada um de nós existe a dimensão xamânica, escondida dentro de nossa interioridade Essa energia xamânica nos faz silenciar diante da grandeza do mar, vibrar diante do olhar da pessoa amada e estremecer face a um recém nascido. Precisamos liberar esta dimensão em nós para entrarmos em sintonia com tudo o que nos cerca e sentirmo-nos em paz.

Talvez nossa vontade de viajar com as naves espaciais na direção do espaço cósmico, não seja  o desejo arquetípico de buscar nossas origens estelares e o ímpeto de regressar ao lugar de nosso nascimento? Vários astronautas expressaram semelhantes idéias.

 

Pertence à noção compreensiva de sustentabilidade, esta nossa busca incontida de equilíbrio com o todo e de sentirmo-nos parte do universo. A sustentabilidade comporta valorizar este capital humano e espiritual cujo efeito é produzir em nós respeito, sentido de sacralidade diante de todas as realidades, valores que alimentam a ecologia profunda e que nos ajudam  a respeitar e a viver em sintonia com a Mãe Terra. Hoje faz-se urgente essa atitude, para moderar a força destrutiva que nas últimas décadas tomou conta de nós.

 

 

Por Leonardo Boff – Teólogo/Filósofo

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30/09/2011 - Clima e Meio Ambiente - Brasil

Área alagada por Belo Monte pode ser bem maior

Um projeto do Ministério Público Federal (MPF) aponta inconsistência na medição das áreas alagadas pela hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira (PA), realizada pelo consórcio da obra. Pelo levantamento, as diferenças entre as medidas podem significar que a área alagada e o número de moradores deslocados serão bem maiores que o previsto nos Estudos de Impacto Ambiental das empresas.

 

A medição independente é realizada por professores e pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), em parceria com o MPF. O limite que as águas do rio Xingu podem chegar é chamado “cota 100”, que é 100 metros acima do nível do mar. As casas e comércios que estiverem abaixo desse nível correm o risco de alagamento. O trabalho da universidade mostra que alguns pontos medidos pelos empreendedores estão entre 70 cm e 1 metro abaixo do constatado pela equipe independente.

 

O número total de ruas, quadras, casas e pessoas afetadas em Altamira será estimado após a conclusão dos estudos de medição topográfica. Desde o último ano, o MPF e a UFPA fazem levantamentos e conferem as informações do empreendimento de Belo Monte. Os órgãos também acompanham a forma como os construtores tratam a população atingida.

 

Por Vivian Fernandes, da Radioagência NP

 

Tomado do site: http://www.mabnacional.org.br

 

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16/09/2011 - Clima e Meio Ambiente - Santa Catarina

Ouça entrevista com militante do MAB sobre a UHE Garibaldi

André Sartori, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), fala sobre a implantação da UHE Garibaldi, no rio Canoas. André dá mais detalhes sobre o problemático empreendimento, de custo estimado em 700 milhões de reais e encabeçado pela empreiteira Triunfo. "Falta muita informação ainda acerca da barragem", afirma.

 

O depoimento foi concedido em audiência pública sobre a implantação da barragem, promovida pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina em Cerro Negro em abril deste ano. Participaram da atividade centenas de camponeses organizados, preocupados com o futuro de suas terras e das próximas gerações do espaço agrário da região.

 

Ouça a clicando em um dos dois links abaixo:

 

Link 01: entrevista com andré sartori.mp3

 

Link 02: http://www.mabnacional.org.br/?q=radio/entrevista-com-integrante-do-mab-sc-sobre-uhe-garibaldi-0


01/08/2011 - Clima e Meio Ambiente - Brasil

Filme "O veneno esta na mesa"

Segue os links do filme "O veneno esta na mesa" do cineasta Silvio Tendler. Documentário denuncia a problemática causada pelos agrotóxicos, e faz parte de um conjunto de materiais elaborados pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. A reprodução e multiplicação é livre.  Copiem, multipliquem, distribuam nas escolas, sindicatos, igrejas, etc.

 

Parte 1

http://www.youtube.com/watch?v=WYUn7Q5cpJ8&NR=1    
 
Parte 2

http://www.youtube.com/watch?v=NdBmSkVHu2s&feature=related   
 
Parte 3

http://www.youtube.com/watch?v=5EBJKZfZSlc&feature=related      
 
Parte 4

http://www.youtube.com/watch?v=AdD3VPCXWJA&feature=related   
 
Divulguem.

Imagem:

http://api.ning.com/files/59nFyO1IaIUbb2dqDSPCbMbqw0E47l79F8wnPExI5HQN99cLszuJ6gABIMEVT5lXrorvAxs3SkJq3rPhKithFrj-aZ4EtiHt/Cartazagrotoxicos.JPG


25/07/2011 - Clima e Meio Ambiente - Região

Fórum das Mudanças Climáticas e Justiça Social

A consciência ecológica tem crescido em vários setores da sociedade que já se articulam para construir outro mundo, outra civilização, fundada em valores e formas de convivência que defendem e promovem a vida e que cuidem amorosamente do planeta terra. Em sintonia com estes desafios e esperanças, a Diocese de Caçador organiza o Fórum Diocesano das Mudanças Climáticas.

 

O encontro acontecerá no dia 31 de julho de 2011 na cidade de Videira, no Centro de Pastoral, ao lado da Igreja Matriz. Terá início às 9h00min e previsão de término as 16h00min. O investimento pessoal é de apenas R$ 10.00, como colaboração solidária para o almoço. O assessor será o educador popular Ivo Poletto, que é assessor de pastorais e movimentos sociais, é filósofo, teólogo, cientista social.

 

O público alvo para o encontro são educadores, profissionais liberais e demais interessados no tema, também estão convidados os estudantes e ex-participantes das Escolas Diocesanas de Formação da Diocese de Caçador. Inscrições e mais informações entre em contato com Divanete Eloísa Bacchi, coordenadora de pastorais da juventude do Contestado, pelo fone/fax: (**49) 3563 – 2045 ou pelo e-mail: dbacchi@diocesedecacador.org.br

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07/06/2011 - Clima e Meio Ambiente - Brasil

Assentamento Filhos de Sepé comemora 13 anos de produção sem agrotóxicos no RS

O ano era 1998, mas o agricultor Almerindo Trevisan lembra como se fosse ontem aquele mês de dezembro em que pisou pela primeira vez na área de 9.500 hectáres situada em Viamão (RS), município da Grande Porto Alegre, que deu origem ao Assentamento Filhos de Sepé.

 

“Éramos mais de 350 famílias querendo trabalhar na terra. Mudamos de mala e cuia para cá. Ainda não havia amanhecido quando chegamos de ônibus e o tempo estava para chuva. As coisas da gente chegaram horas depois, de caminhão, e nós armamos nossos barracos de lona debaixo d’água”, recorda.

 

As moradias improvisadas permaneceram de pé por sete meses, até o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) regularizar a situação dos lotes de cada família. “Nós chegamos aqui com muitos sonhos e pouca experiência. Tínhamos a ideia de logo montar uma cooperativa mas só conseguimos fazer isso bem depois”, detalha seu Almerindo, que trabalha no campo desde menino e garante que nunca pensou em desistir.

 

“Eu tenho 58 anos e sempre batalhei pela produção orgânica. Hoje tem muita gente que reconhece a importância disso, mas noutros tempos não era bem assim e a gente era taxado de louco, inclusive aqui, dentro do Assentamento” conta Almerindo.

 

Segundo ele, no início as divergências entre os assentados foram um entrave. Tanto que a briga por um modelo de desenvolvimento agrícola auto-sustentável, com a preservação dos recursos naturais, extrapolou os limites do assentamento e teve que ser levada ao Ministério Público.

 

“A vitória veio para o lado de quem manteve o compromisso de produzir orgânico e de quem botou o assentamento acima dos interesses individuais”, sustenta.

 

O saldo dessa disputa judicial, relata seu Almerindo, é que algumas famílias foram embora e outras tiveram que aderir à produção livre de agrotóxicos. Não poderia ser diferente: todo o assentamento está localizado numa reserva ambiental que leva o nome de “Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos”, com aproximadamente 2.500 hectáres de Áreas de Preservação Permanente, com diversas nascentes, açudes e cursos de água.

 

“Foi uma situação complicada, tivemos que botar a cara para bater, mas deu certo: depois disso conseguimos montar a cooperativa e fugimos das mãos dos travassedores”, afirma.

 

Hora da colheita

De acordo com o técnico agrícola que atua no local, Edvane Portela, após a formalização da Cooperativa dos Produtores Orgânicos da Reforma Agrária (Coperav), da qual participam 62 famílias, a produção de arroz orgânico foi fortalecida.

 

“Este ano tivemos nossa safra recorde, com 80 mil sacos de arroz”, comemora Edvane. Além do arroz, os agricultores se dedicam à horticultura, ao plantio de frutas e à produção de leite, carne e ovos. O próximo passo, aponta Edvane, é investir numa agroindústria para o beneficiamento de artigos como mel, queijos e embutidos.

 

Diferente de outros assentamentos que se deparam com o obstáculo do escoamneto da produção, a localização privilegiada do Filhos de Sepé facilita o comércio dos produtos. “Estamos na Região Metropolitana, que é o maior parque consumidor do Estado”, pontua Edvane.

 

No entanto, ainda é preciso melhorar na gestão administrativa da cooperativa. Atualmente, a maior parte das vendas é feita para a Companhia Nacional de Abastecimento.

 

Construção da padaria

A alimentação escolar também é um mercado importante para o assentamento, já que a Lei Federal 11.947, de 2009, determinou que a rede pública de ensino deve priorizar a aquisição de produtos da agricultura familiar para oferecer aos alunos.

 

Desse novo nicho também nasceu a necessidade de montar um padaria e, desde o ano passado, um grupo de 10 mulheres assentadas está a frente do empreendimento. “Nós fazemos cucas, biscoitos e pães para os colégios. A padaria abriu um novo horizonte para mim e estou muito feliz com o que eu faço”, conta a trabalhadora Solange Pietroski.

 

Na avaliação de seu Almerindo, o Filhos de Sepé está vivendo o seu melhor momento. “Temos uma visão de futuro e ela é de muito trabalho. Passamos por uma perseguição e tivemos uma briga feia na disputa de projetos. Agora, o caminho é continuar vivendo da terra e produzindo”, defende o agricultor.

 

Satisfeito, ele levanta da cama todos os dias antes das seis horas, toma seu chimarrão, um bom café da manhã e parte para a labuta diária, um trabalho que vai até o cair da tarde e inclui cuidar de plantações e de animais. “Quando chegamos aqui eu era um homem cheio de esperanças e hoje continuo um homem cheio de esperanças”, garante.

 

Por Nanda Barreto

Para o Blog da Reforma Agrária

http://www.reformaagraria.blog.br

 

Imagem:

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31/05/2011 - Clima e Meio Ambiente - Brasil

Aprovada a destruição. Que Fazer?

Vivemos um eterno retorno quando se trata da proteção aos latifundiários e grandes empresas internacionais. No Brasil contemporâneo, pós-ditadura, nunca houve um governo sequer que buscasse, de verdade, uma outra práxis no campo. Todos os dias, nas correntes ideológicas do poder, disseminadas pela mídia comercial – capaz de atingir quase todo o país via televisão – podemos ver, fragmentadas, as notícias sobre a feroz e desigual queda de braço entre os destruidores capitalistas e as gentes que querem garantir vida boa e plena aos que hoje estão oprimidos e explorados.

Nestes dias de debate sobre o novo Código Florestal, então, foi um festival. As bocas alugadas falavam da votação e dos que são contra o código como se fossem pessoas completamente desequilibradas, que buscam impedir o progresso e o desenvolvimento do país. Não contentes com todo o apoio que recebem da usina ideológica midiática, os latifundiários e os capatazes das grandes transnacionais que já dominam boa parte das terras brasileiras, ainda se dão ao luxo de usar velhos expedientes, como o frio assassinato, para fazer valer aquilo que consideram como seu direito: destruir tudo para auferir lucros privados.

Assim, nos exatos dias de votação do novo código, jagunços fuzilam Zé Claudio, conhecido defensor da floresta amazônica. Matam ele e a mulher, porque os dois incomodavam demais com esse papo verde de preservar as árvores. Discursos tolo, dizem, de quem emperra a distribuição da riqueza, deles próprios, é claro. E o assassinato acontece, sem pejo, no mesmo dia em que os deputados discutem como fazer valer – para eles – os seus 30 dinheiros sujos de sangue.

Imagens diferentes, mas igualmente desoladoras. De um lado, a floresta devastada e as vidas ceifadas à bala, do outro a tal da “casa do povo”, repleta de gente que representa, no mais das vezes, os interesses escusos de quem lhes enche o bolso. Pátria? País? Desenvolvimento? Progresso? Bobagem! A máxima que impera é do conhecido personagem de Chico Anísio, o deputado Justo Veríssimo: eu quero é me arrumar!

No projeto construído pelo agronegócio só o que se contempla é o lucro dos donos das terras, dos grileiros, dos latifundiários. Menos mata preservada, legalização da destruição, perdão de todas as dívidas e multas dos grandes fazendeiros. Assim é bom falar de progresso. Progresso de quem, cara pálida? Ao mesmo tempo, os “empresários” do campo, incapazes de mostrar a cara, lotam as galerias com a massa de manobra. Pequenos produtores que acreditam estar defendendo o seu progresso. De que lhes valerá alguns metros a mais de terra na beira de um rio se na primeira grande chuva, o rio, sem a proteção da mata ciliar, transborda e destrói tudo? Que lógica tacanha é essa que impede de ver que o homem não está descolado da natureza, que o homem é natureza.

Que tamanha descarga de ideologia os graúdos conseguem produzir que leva os pequenos produtores a pensar que é possível dominar a natureza, como se ao fazer isso não estivessem colocando grilhões em si mesmo? Desde há muito tempo – e gente como Chico Mendes, irmã Doroty e Zé Claudio já sabia - que o ser humano só consegue seguir em frente nesta terra se fizer pactos com as outras forças da natureza. E que nestes pactos há que se respeitar o que estas forças precisam sob pena de ele mesmo (o humano) sucumbir.

O novo código florestal foi negociado dentro das formas mais rasteiras da política. Por ali, na grande casa de Brasília, muito pouca gente estava interessa em meio ambiente, floresta, árvore, rio, pátria, desenvolvimento. O negócio era conseguir cargo, verba, poder. Que se danem no inferno pessoas como Zé Cláudio, que ficam por aí a atrapalhar as negociatas. Para os que ali estavam no plenário da Câmara gente como o Zé e sua esposa Maria não existem. São absolutamente invisíveis e desnecessárias. Haverão de descobrir seus assassinos, talvez prendê-los por algum tempo, mas, nas internas comemorarão: menos um, menos um.

Assim, por 410 x 63, venceram os destruidores. Poderão desmatar a vontade num tempo em que o planeta inteiro clama por cuidado. Furacões, tsunamis, alagamentos, mortes. Quem se importa? Eles estarão protegidos nas mansões. Não moram em beiras de rio. Dos 16 deputados federais de Santa Catarina apenas Pedro Uczai votou não. Até a deputada Luci Choinacki, de origem camponesa, votou sim, contrariando tudo o que sempre defendeu.

Então, na mesma hora em que a floresta chorava por dois de seus filhos abatidos a tiros, os deputados celebravam aos gritos uma “vitória” sobre o governo e sobre os ecologistas. Daqui a alguns dias se verá o tipo de vitória que foi. Mas, estes, não se importarão. Não até que lhes toque uma desgraça qualquer. O cacique Seatlle, da etnia Suquamish, já compreendera, em 1855, o quanto o capitalismo nascente era incapaz de viver sem matar: “Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la, ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende”.

Zé Claudio e Maria eram assim, vistos como “selvagens que nada compreendem”. Mas, bem cedo se verá que não. Eles eram os profetas. Os que conseguiam ver para além da ganância. Os que conseguiam estabelecer uma relação amorosa com a terra e com as forças da natureza. Eles caíram à bala. E os deputados vende-pátria, quando cairão?

Já os que gritam e clamam por justiça, não precisam esmorecer. Perdeu-se uma batalha. A luta vai continuar. Pois, se sabe: quem luta também faz a lei. Mas a luta não pode ser apenas o grito impotente. Tem de haver ação, organização, informação, rebelião. Não só na proteção do verde, mas na destruição definitiva deste sistema capitalista dependente, que superexplora o trabalho e a terra. É chegada a hora de uma nova forma de organizar a vida. Mas ela só virá se as gentes voltarem a trabalhar em cada vereda deste país, denunciando o que nos mata e anunciando a boa nova.

Por Elaine Tavares – jornalista

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14/03/2011 - Clima e Meio Ambiente - Mundo

Agroecologia pode dobrar produção de alimentos em 10 anos

Ao mesmo tempo em que a alta mundial no preço dos alimentos atinge seu maior patamar em duas décadas e dá força redobrada ao fantasma da fome que persegue as populações pobres dos países economicamente mais vulneráveis, um informe da Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que a agroecologia pode duplicar a produção alimentar nos próximos dez anos.

 

Divulgado na terça-feira (8) pelo Alto-Comissariado de Direitos Humanos, o documento que, segundo a ONU, foi embasado por “uma exaustiva revisão da literatura científica mais recente”, defende a agroecologia como “meio para incrementar a produção alimentar e melhorar a situação dos mais pobres”.

 

Os estudos que embasaram o informe foram coordenados pelo belga Olivier de Schutter, que desde 2008 é relator especial da ONU sobre direito à alimentação: “Para poder alimentar a nove bilhões de pessoas em 2050, necessitamos urgentemente adotar as técnicas agrícolas mais eficientes conhecidas até hoje. Neste sentido, os estudos científicos mais recentes demonstram que ali onde reina a fome, especialmente nas zonas mais desfavorecidas, os métodos agroecológicos são muito mais eficazes para estimular a produção alimentar do que os fertilizantes químicos.”

 

De acordo com os casos relatados no documento da ONU, projetos agroecológicos desenvolvidos nos últimos anos em 57 países em desenvolvimento registraram um rendimento médio de 80% em suas lavouras. Isso significa, por exemplo, um aumento de 116% na média de todos os projetos desenvolvidos na África. “Os projetos mais recentes levados a cabo em 20 países africanos demonstraram que é possível duplicar o rendimento das lavouras em um período de três a dez anos”, afirma Schutter.

 

A ONU afirma que o modelo agrícola dominante, baseado nas monoculturas e na utilização massiva de agrotóxicos, fertilizantes e outros insumos, “já demonstrou não ser a melhor opção no contexto atual”, além de acelerar o processo de aquecimento global. “Amplos setores da comunidade científica já reconhecem os efeitos positivos da agroecologia sobre a produção alimentar no que se refere à redução da pobreza e à mitigação dos efeitos das mudanças climáticas”, afirma o documento.

 

Menos agrotóxicos

O relatório divulgado pelo Alto-Comissariado de Direitos Humanos da ONU também dá destaque aos países que diminuíram consideravelmente a utilização de agrotóxicos nos últimos anos. São citados no documento países como Indonésia, Vietnã e Bangladesh, que reduziram em até 92% o uso de agrotóxicos na produção de arroz, que é o alimento básico das populações camponesas desses países.

 

Outro exemplo citado no relatório é o do Malauí, país que era grande consumidor de produtos agroquímicos e agora faz com sucesso a transição para um modelo agroecológico. Segundo a ONU, essa transição já tirou da extrema pobreza 1,3 milhões de pessoas, além de aumentar o rendimento das lavouras de milho do país de uma para três toneladas por hectare. “O conhecimento substituiu os pesticidas e fertilizantes”, comemora Olivier de Schutter.

 

O relator especial da ONU sobre o direito à alimentação afirma que o Estado tem um “papel fundamental” a cumprir no fortalecimento da agroecologia. “As empresas privadas não investirão tempo e dinheiro em práticas que não podem proteger com patentes e que não pressuponham uma abertura dos mercados para novos produtos químicos ou sementes melhoradas”. Schutter também exortou os Estados a darem maior apoio às organizações camponesas que, segundo ele, “demonstraram uma grande habilidade na hora de difundir as melhores práticas agroecológicas entre seus membros”.

Fonte: Rede Brasil Atual tomada da pagina do MST

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08/05/2012 - Clima e Meio Ambiente - Santa Catarina  

Emissário no Campeche, não!

O Campeche decidiu e não havia nada mais a discutir. A obra do emissário não seria feita. Há anos a empresa de saneamento insistia no projeto. Fazer um grande cano levando a bosta da cidade para o mar. E a saída seria ali, nas águas da praia. Mas, a gente do lugar era assim, decidia e fazia cumprir. O prefeito – que nem nascera na cidade – desconhecia aquela força e, sem ligar, mandou a obra seguir. Do nada apareceram operários, máquinas, cimento, tijolos. Surdo aos desejos das gentes ele tocava para frente o emissário. O homem da empresa de saneamento jurava de pés juntos que o esgoto não poluiria a praia. “Vai sair longe, não chegará à margem”. E os repórteres reproduziam à exaustão as mentiras bem armadas. Não seria uma comunidade atrasada que impediria a cidade de se modernizar.

Dentro das casas, o povo esperava. Vez ou outra passava pela obra algum morador, de olhos compridos, espiando. As mulheres ressuscitavam bruxedos e nas noites de lua dançavam na praia, invocando poderes adormecidos. As crianças recolhiam ervas e bichos para as poções de encantamento. As velhas recitavam antigas orações achadas nos baús. Os mais jovens se reuniam na praia e socializavam entre eles os planos que se urdiam nas casas.

 

Então, numa noite de lua nova, quando a escuridão caia como um manto sobre a cidade, no Campeche não se viu qualquer luz. Escondidas pelo negrume, as pessoas saiam das casas, uma a uma, em direção ao rancho de canoa. Lá dentro os velhos faziam arder o caldeirão e só se ouvia o estalido da madeira, salpicando uma chama bem tímida. O mar se agitava, a maré bem cheia. O vento soprava terral, uivando, feito bicho.

 

No rancho, as gentes se postavam em roda. Um murmúrio baixinho embalava o girar da colher de pau no caldeirão. As mãos se fechavam umas nas outras, o murmúrio aumentava, e na noite de maio, aquele barulho de vozes humanas se fez ensurdecedor. Era como um vagalhão alucinado invadindo a cidade. Assustador.

Os homens da obra despertaram. O que era? As vozes, os murmúrios alucinantes, o cheiro de jasmim. Saíram para a rua e não viam nada. Era o breu. Lá longe, no mar, parecia assomar uma vaga de água, alguma coisa mais escura do que a própria noite. Os cabelos arrepiaram, o coração parou. “Bem que avisaram que aqui tinha bruxa”, disse um. “Bobagem”, disse outro, enquanto sentia um bafo quente na nuca. A fumaça ou sei lá o quê foi adensando e cobriu a obra, com gente e tudo. A estação de tratamento, quase pronta, sumiu na bruma. Houve barulho de lata, prego, cano. Tudo esboroava. Os trabalhadores amoleceram e perderam os sentidos. Na escuridão do Campeche só a fumaça e o murmúrio eram constantes.

 

No centro da cidade, o prefeito acordou enregelado. Um aperto no peito, uma sufocação. Levantou e foi tomar água. Espiou pela janela e petrificou. Lá fora, envolta na escuridão, uma mulher bem alta, branca como a lua, olhava para ele com olhos de fogo. Não disse palavra. Apenas o olhar, assustador, felino. O prefeito voltou para a cama como um autômato. Dormiu num segundo.

 

Quando o dia amanheceu no Campeche já não havia obra. Alguns homens atordoados se perguntavam o que faziam tão longe de casa. As pessoas os acolhiam com um chá quente e logo foram embora, sem saber o que passara. No gabinete do prefeito, quem chegara nem de longe parecia o jovem ariano, pretencioso. Como um zumbi, se debruçou sobre os papéis e começou a babar. Nunca mais foi o mesmo. Vieram médicos, psicólogos e especialistas, sem encontrar cura. O vice, que era filho do lugar, sumiu no mundo. Ninguém mais soube dele. O presidente da companhia de saneamento esqueceu os últimos setes anos e foi viver em um sítio em Antônio Carlos.

 

Na praia, as pessoas seguiam suas vidinhas. Jogar a canoa no mar, colher o peixe, um violão ao anoitecer, o terno de reis, a bandeira do divino, a festa de são Sebastião, as ruas sem asfalto, as damas-da-noite com seu cheiro doce, o pão-por-deus. O tal emissário que jogaria a bosta da cidade no mar? Nunca mais se ouviu falar. E quando alguém do poder tenta trazer à memória esse “monstro de cocô”, as mulheres se entreolham e balançam a cabeça furtivamente. É quando uma fumaça densa e escura começa a se formar... Ninguém brinca com o povo do Campeche, não... Ah, não...!

 

Por Elaine Tavares

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08/04/2012 - Clima e Meio Ambiente - Mundo  

Nova cosmologia e libertação

Tempos atrás o Museu Americano de História Natural fez uma consulta entre biólogos  perguntando se eles acreditavam que estávamos no meio de uma extinção em massa. 70% responderam positivamente que sim. O renomado cosmólogo Brian Swimme, autor junto com Thomas Berry de uma das mais brilhantes narrativas da história do Universo (The Universe Story,1992) foi perguntado o que poderíamos fazer, respondeu:”O universo já vem, há tempos, fazendo a sua parte para deter o desastre; mas nós temos que fazer a nossa. E o faremos mediante o despertar de uma nova consciência cosmológica, vale dizer, se ajustarmos  nossas condutas à lógica do Universo. Mas não estamos fazendo o suficiente”.

 

Que quer dizer esta resposta? Ela acena para uma nova  consciência que assume a responsabilidade coletiva com referência à proteção de nossa Casa Comum e à salvaguarda de nossa civilização. E ajustar nossas condutas à lógica do Universo significa responder aos apelos que nos vem do assim chamado “princípio cosmogênico”. Este é o que estrutura a expansão e a autocriação do universo com todos os seus seresinertes e vivos. Ele se manifesta por três características: a diferenciação/complexificação; a subjetividade/interiorização; e a interdependência/comunhão.

 

Em palavras mais simples: quanto mais o universo se expande, mais se complexifica: quanto mais se complexifica mais ganha  interiozação e a subjetividade (cada ser tem seu modo próprio de se relacionar e fazer a sua história) e quanto mais ganha interiorização e subjetiviadade  mais os seres todos entram em comunhão entre si e reforçam sua interdependência no quadro de um pertencimento a um grande Todo. Comentam Berry/Swimme:”Se não tivesse havido complexidade (diferenciação), o universo ter-se-ia fundido numa massa homogênea; se não tivesse havido subjetividade, o universo ter-se-ia tornado uma extensão inerte e morta: se não tivesse havido comunhão, o universo ter-se-ia transformado num número de eventos isolados”.

 

Nós teólogos da libertação, em quarenta anos de reflexão, temos  tentado explorar as dimensões econômicas,sociais, antropológicas e espirituais da libertação como resposta às opressões específicas. No contexto da crise ecológica generalizada, estamos tentando  incorporar esta visão cosmológica. Esta nos obrigou a quebrar o paradigma  convencional com o qual organizávamos nossas reflexões, ligadas  ainda à cosmologia mecanicista e estática. A nova cosmologia vê diferentemente o universo, como um processo incomnsurável de evolução/expansão/criação, envolvendo tudo o que se passa em seu interior, também a consciência e sociedade.

 

Em termos do princípio cosmológico, libertação pessoal significa: libertar-se de amarras  para sentir-se em comunhão com todos os seres e com o universo,  fenômeno que os budistas chamam de “iluminação” (satori), uma experiência de não-dualidade e que São Francisco viveu no sentido de uma irmandade aberta com todos os seres. Em termos sociais, a libertação, à luz do princípio cosmogênico é: a criação de uma sociedade sem opressões onde as diversidades são valorizadas e expandidas (de gênero, de culturas e caminhos espirituais). Isso implica deixar para trás a monocultura do pensamento único na política, na economia e na teologia oficial. Este é o principal fator de opressão e de homogeneização.

 

A libertação requer também um aprofundamento da interioridade. Esta já não se satisfaz com o mero consumo de bens materiais; pede valores ligados à criatividade, às artes, à meditação e à comunhão com a Mãe Terra e com o Universo. A libertação resulta do reforço da “matriz relacional” especialmente com aqueles que sofrem injustiças e são excluidos. Esta matriz nos faz sentir  membros da comunidade de vida e filhos e filhas da  Mãe Terra que através de nós sente, ama, cuida e se preocupa pelo futuro comum.

 

Por fim, a libertação na perspectiva cosmogênica demanda uma nova consciência de interdependência e de responsabilidade universal. Somos chamados a reinventar nossa espécie, como o fizemos no passado nas várias crises pelas quais a humanidade passou. Agora ela é urgente porque não temos muito tempo e devemos estar à altura dos desafios da atual crise da Terra.

 

Por Leonardo Boff – Teólogo/Filósofo

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14/03/2012 - Clima e Meio Ambiente - Santa Catarina  

MAB ocupa canteiro de obras da barragem de Garibaldi, em SC

Cerca de 500 atingidos pela barragem de Garibaldi ocuparam nesta madrugada (13/03) o canteiro de obras da hidrelétrica, de propriedade da empresa Triunfo. O objetivo da ação é cobrar os direitos dos atingidos, que estão sendo sistematicamente negados pela empresa, e prestar solidariedade aos trabalhadores da obra que também protestam por melhores salários e condições de trabalho.

 

Há mais de um ano os atingidos por barragens da região vem reivindicando seus direitos e em muitos casos, as famílias sequer são reconhecidas como impactadas pela barragem. Segundo o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), até agora a empresa se nega em avançar nas negociações com as famílias.

A empresa tem causado um grande descontentamento na região atingida pela barragem e entre os trabalhadores. Na última quinta-feira, dia 8 de março, centenas de trabalhadores da usina atearam fogo nos alojamentos do canteiro de obras em protesto às péssimas condições de trabalho e baixos salários.

 

A barragem da empresa Triunfo deverá custar cerca de R$ 780 milhões e atinge os municípios de Adbon Batista (onde fica o canteiro de obras), Cerro Negro, Vargem, Campo Belo do Sul e São José do Cerrito, alagando 1.864 hectares de terra fértil e expulsando aproximadamente mil famílias. As empresas donas da barragem terão o direito de explorar a produção de energia pelo prazo de 30 anos.

 

A ação na barragem de Garibaldi faz parte da jornada nacional de lutas do MAB, em comemoração ao 14 de março, Dia internacional de luta contra as barragens.

 

Mais informações: http://www.mabnacional.org.br

 

Assessoria de Imprensa: (54) 3522 1857

 

Porta-vozes: (49) 8815 6301 e (49) 8877 0577

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14/01/2012 - Clima e Meio Ambiente - Mundo  

A história da água engarrafada - assista e divulgue.

Annie Leonard, a produtora de A História das Coisas, lançou no Dia Mundial da Água o seu novo documentário: The Story of Bottled Water – A História da Água Engarrafada. Agora o foco é a indústria da Água Engarrafada, a verdadeira história por trás desse hábito moderno. O vídeo, com duração de oito minutos, questiona a falta de consciência ecológica dos cidadãos que compram garrafas de água enquanto poderiam beber água tratada. Annie também apresenta o dano que essa prática causa ao planeta, como o aumento da poluição e o mal uso de dinheiro. Uma campanha contra as manipulações da Pepsi, Coca-cola, Nestle, Parmalat, e etc. Clique em continue lendo e veja o documentário.

 

Assista aqui: http://www.youtube.com/watch?v=AM9G7RtXlFQ&feature=player_embedded

 

 

 

Imagem:

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28/10/2011 - Clima e Meio Ambiente - Santa Catarina  

Atingidos por Itá falam de problemas em audiência pública

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), participa hoje (21) de uma audiência pública sobre o uso do lago da barragem de Itá para fins de turismo e lazer. A audiência ocorre no Clube Cruzeiro, em Itá, Santa Catarina.

 

Os atingidos por Itá irão apresentar os problemas decorrentes da barragem e falar das pendências que ficaram após a construção. Do ponto de vista dos atingidos, o turismo e o lazer são importantes para o desenvolvimento da região, mas também são necessários incentivos para a produção de comida, acesso a projetos na área da pesca, moradia, esporte, entre outros, para melhorar a qualidade de vida da população.

 

Antes da construção da barragem, os ribeirinhos tinham acesso a tudo isso, porque existiam as grandes comunidades rurais, com toda a estrutura, desde campo de futebol até terra para o plantio de suas lavouras. Com a vinda da barragem, os agricultores, além de perderem suas terras, ficaram sem suas comunidades, e hoje estão procurando formas para se manter no campo.

 

Além disso, uma das grandes reclamações é que os agricultores não tem acesso ao lago da barragem, privatizado pela empresa Tractebel. Não se pode pescar nem dar água aos animais no local.

 

Outro problema que os ribeirinhos estão sofrendo é a qualidade de energia elétrica em suas propriedades. As empresas que fazem a distribuição de energia não fazem a manutenção adequada, o que provoca queda da luz quando ligam os equipamentos, por exemplo, para ordenhar os animais que produzem leite.

 

A audiência foi agendada pelo presidente da Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina, deputado Gelson Merisio, e pelo presidente da Comissão de Turismo e Meio Ambiente, deputado Neodi Saretta, com a empresa dona da hidrelétrica, Tractebel.

 

 

Fonte: http://www.mabnacional.org.br  

Todo o conteúdo do site do MAB pode ser reproduzido por qualquer veículo de comunicação, desde que citada a fonte e mantida a íntegra do material. Caso tenhamos publicado algum material de sua autoria sem crédito, entre em contato conosco.


04/08/2011 - Clima e Meio Ambiente - Região  

Mudanças Climáticas

Aconteceu, no domingo (31), no Salão Paroquial da Igreja Matriz de Videira, com a Organização da Diocese de Caçador, o Fórum das Mudanças Climáticas. A Coordenação foi do Cientista Social Ivo Poletto, da cidade de Goiânia / GO.  Em consonância com a Campanha da Fraternidade 2011, discutiu-se sobre o sofrimento que a mãe terra esta passando, dor de parto e agonia, pelas ações descontroladas dos seres humanos, que buscam o Progresso a qualquer preço.

 

Não devemos nos acomodar com a situação que estamos vivendo no planeta de forma geral, cada um tem que fazer a sua parte, precisamos nos organizar e manifestar nossa opinião com relação a tudo que esta acontecendo, no planeta. O espírito de Deus vem em nosso socorro para orarmos , para nos inspirar, nos, libertar e libertar a terra.  Segundo Francis Bacon, Teoria da Modernidade, o homem por ser racional, tem o direito de dominar a terra, descobrir seus segredos e explorá-la. A terra so tem sentido, quando atende todas as necessidades do homem, esta e uma proposta antropocêntrica (machista), mas que como vemos todas as catástrofes que estão acontecendo, chegamos a conclusão de que esta muito equivocada.  

 

O Planeta demorou bilhões de anos para ser formado, e, devido ao consumismo desenfreado e a busca de lucro das grandes empresas e corporações, estão fazendo com que em pouco tempo, haja uma degradação de todo o sistema, comprometendo o futuro das próximas gerações. Há necessidade de tomarmos urgentemente uma nova mudança cultural e educacional.

 

Alguns dados apresentados:

- Serrado, em 30 anos destruímos cerca de 80 %;

- Mata Atlantica, restam apenas 7% de reservas;

- Nos últimos 50 anos, aumento da temperatura media no planeta em 1˚;

- Se continuarmos neste ritmo, chegaremos ao ano 2100, com um aumento da temperatura media em torno dos 5˚;

- há um desequilíbrio grande na atmosfera, causado pelos 200 anos de industrialização;

 

A terra viva, e mãe, devemos utilizar os recursos naturais de forma consensuada, viver mais simplesmente para que os outros possam simplesmente viver – bem viver – forma de viver com os outros comunitariamente.

Foram divididos os participantes em 06 (seis) grupos para discutir:

1)  Pensar o que podemos fazer, para que tenhamos maiores cuidados com a Terra;

2)  Quem e responsável pela ação;

3)  O que podemos fazer para amenizar ou melhorar a situação em que nos encontramos;

Sugestões:

 - Conscientização e Mobilização comunitária (reciclagem do lixo, economizar água, diminuir a utilização de sacolas plásticas, diminuir as trocas de telefones celulares);

- Pressão e organização nas ações do poder público;

- Da para nos desafiarmos a encontrar outras formas de pressões;

- Pensar alternativas de pressionar o Governo a mudar as políticas publicas de energia;

- Devemos sair de uma acomodação;

- Aprender a dizer NÃO, para dizer SIM;

Que DEUS nos ajude a ter criatividade.

 

Agradecemos a APAFEC – Associação Paulo Freire de Educação e Cultura Popular de Fraiburgo, pela parceria com a Associação Hayashi-ha Vital Fraiburgo de Karatê-dô / Projeto Karatê-dô Cidadão do Futuro – São Miguel, São Cristovão e Nossa Senhora Aparecida, por podermos ter participado de um Forum importante e atual como este. Participantes da Associação (Sr. Atair de Souza Pires, Daniele de Souza Pires, Franklin Firmino Corso Duarte, Sensei Luiz Coelho).

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22/07/2011 - Clima e Meio Ambiente - Mundo  

Organizações sociais consideram que privatização do serviço de água trará prejuízos para a população

A privatização das empresas públicas de abastecimento de água e tratamento de esgoto poderá ter como consequência o aumento nas contas de água e a diminuição dos investimentos no setor. O alerta é das organizações sociais que participaram de seminário que discutiu como a população pode se organizar para impedir que as empresas sejam vendidas.

 

De acordo com representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), 90% da rede de distribuição de água no país são controlados por empresas públicas, com uma cobertura de quase 100% das grandes e médias cidades. Para o MAB, um negócio que não requer grandes investimentos e pode movimentar anualmente cerca de R$ 120 bilhões, mais que todo setor elétrico, desperta o interesse da inciativa privada.

 

Sob o controle das empresas particulares, a consequência imediata é o aumento abusivo dos preços, segundo um dos diretores do MAB, Gilberto Cervinski. No município de Santa Gertrudes, em São Paulo, onde o sistema foi privatizado em 2010, os preços triplicaram em seis meses."Isso ocorre por causa do modelo de reajuste estabelecido com base em preços internacionais. No caso do setor elétrico, depois da privatização, os preços subiram 400%", disse.

 

Em Rondônia, segundo representantes do Sindicato dos Trabalhadores das Empresas de Água e Energia, empresários assediam vereadores. A entidade também denuncia que em municípios do estado as prefeituras têm, inclusive, atropelado processos legais como a licitação para a concessão do sistema de abastecimento, como ocorreu em Ariquemes. Contrários à privatização, os sindicalistas avaliam que as empresas privadas investirão menos na ampliação da rede e, principalmente, em saneamento.

 

Juscelino Eudâmidas Bezerra, doutorando da Universidade Estadual Paulista (Unesp), disse que pesquisas internacionais estimam que, até 2015, 60% da capacidade de abastecimento da América Latina sejam privatizados. De acordo com ele, nos países ricos, onde a ideia da privatização surgiu, os governos estão voltando atrás.

 

"O Estado francês, onde surgiram as primeiras experiências de concessão do sistema de distribuição de água, está reestatizando todo o serviço. Eles viram que a qualidade do serviço e da água caíram, os preços subiram exorbitantemente e o serviço não foi universalizado", disse.

 

O MAB também ressaltou que a Itália, por meio de referendo, decidiu, em junho passado, que o sistema de água deve ser gerido por empresas públicas.

 

Por Isabela Vieira, da Agência Brasil

 

Fonte: http://mabnacional.org.br

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http://resistir.info/agua/imagens/de_todos.jpg 


18/07/2011 - Clima e Meio Ambiente - Mundo  

MAB realiza seminário internacional sobre a água nessa semana

O processo de privatização da água é uma realidade nas cidades brasileiras de grande e médio porte. Atento a esta situação, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) organiza o Seminário Internacional: Panorama político sobre estratégias de privatização da água na América Latina. O evento será realizado na Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nos dias 20 e 21 de julho.

 

Durante o evento, os participantes irão debater sobre os atuais projetos que visam a mercantilização e privatização da água em diferentes países, como Itália, Chile, Bolívia e Peru, além do Brasil, e diversos setores, como na mineração, agricultura, saneamento, entre outros. Outro objetivo do seminário é proporcionar um espaço de troca de experiências acerca das lutas contra a privatização da água, fortalecendo assim articulação entre as organizações participantes para a mobilização em defesa da água como um bem público.

 

Participarão do seminário cerca de 120 pessoas de movimentos sociais, redes de articulação, representantes de universidades e convidados do Brasil e de outros países da América Latina, Europa e África. Está confirmada a presença de representantes da Suíça, Chile, México, El Salvador, Colômbia, Argentina, Paraguai, Moçambique, Espanha, Venezuela, Panamá, Bolívia, Perú e Canadá.

 

O Seminário Internacional: Panorama político sobre estratégias de privatização da água na América Latina antecede a 3ª etapa do Curso Energia e Sociedade no Capitalismo Contemporâneo, um convênio entre o MAB e o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR), da UFRJ.

Programação

 

Manhã

Tarde

Noite

20/07 –

Quarta-feira

9h – Abertura

Análise de conjuntura econômica e política no cenário mundial

14h - Estratégias capitalistas para o domínio da água

 

19h30 - Pré-lançamento do filme "O veneno está na mesa", de Silvio Tendler

21/07 –

Quinta-feira

8h30 - Experiências de luta e resistência em defesa da água

14h - Encaminhamentos e encerramento

 

 

Serviço

Seminário Internacional: Panorama político sobre estratégias de privatização da água na América Latina

Local: Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)- Ilha do Fundão

Data: 20 e 21 de julho

Imprensa: O seminário será aberto para cobertura na parte da tarde do dia 20.

Contato:

(21) 9770-2173 (Alexania Rossato ou Elisa Estronioli - a partir do dia 18)

(11) 3392-2660

 

Fonte: http://www.mabnacional.org.br

Imagem:

http://www.apn.org.br/apn/images/lutas_sociais/seminario_agua.jpg

 


30/06/2011 - Clima e Meio Ambiente - Santa Catarina  

A sociedade civil discutindo o futuro de Florianópolis

Será realizado, nos dias 1º e 2 de julho, sexta e sábado, no auditório da OAB, em Florianópolis, o Congresso da Cidade, que tem como tema “A sociedade civil discutindo o futuro de Florianópolis, passados dez anos da aprovação do Estatuto da Cidade”.

 

Os objetivos são contribuir para o fortalecimento organizacional, em particular das organizações e movimentos sociais, através do debate sobre o futuro da cidade e os grandes lineamentos para seu desenvolvimento sustentável integral (ambiental, social, econômico e político).

 

O Congresso terá dois momentos, o primeiro em julho e o segundo em agosto. A programação de 1º e 2 de julho tem como foco discutir o Plano Diretor de Florianópolis à luz das diretrizes distritais para o Plano Diretor Participativo surgidas no  processo das Audiências  Públicas.

 

O evento é aberto e gratuito.

 

A programação é a seguinte:

 

1º - sexta feira

19:00 Inscrições

19:30 Abertura

20:30 Palestra: “Avanços e limites da participação no planejamento das cidades”, com o doutor Elson Manoel Pereira, professor de Planejamento Urbano do curso de Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

21:30 Debates

 

2 – sábado

08:30 - Oficina 01

Apresentação das Diretrizes Distritais pelos representantes dos Núcleos Distritais com foco na vocação e no uso e ocupação do solo

14:00 - Oficina 02

Contraposição das Diretrizes Distritais com a proposta da CEPA/IPUF/PMF (após exposição, oficina por região)

18:30 - Plenária

Síntese das Diretrizes da Gestão Democrática deliberadas no processo do PDP; esboço de grandes lineamentos para o desenvolvimento da Cidade.

 

Enviado por: Míriam Santini de Abreu

Contatos: misabreu@yahoo.com.br

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25/06/2011 - Clima e Meio Ambiente - Brasil  

Movimentos sociais se mobilizam em defesa da água no Brasil

O processo de privatização da água é uma realidade nas cidades brasileiras de grande e médio porte. Atento a esta situação, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) organiza o Seminário Internacional: Panorama político sobre a questão da água. O evento será realizado na Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nos dias 20 e 21 de julho.

 

Durante o evento, os participantes irão debater sobre os atuais projetos que visam a mercantilização e privatização da água em diferentes países, como Itália, Chile, Bolívia e Peru, além do Brasil, e diversos setores, como na mineração, agricultura, saneamento, entre outros. Outro objetivo do seminário é proporcionar um espaço de troca de experiências acerca das lutas contra a privatização da água, fortalecendo assim articulação entre as organizações participantes para a mobilização em defesa da água como um bem público.

 

Participarão do seminário movimentos sociais, redes de articulação, representantes de universidades e convidados do Brasil e de outros países da América Latina, Europa e África. Para as lideranças do MAB, é necessário que os temas ligados à água sejam cada vez mais públicos e de conhecimento da classe trabalhadora. Esta preocupação nasce da constatação de que as empresas que estão entrando no processo de privatização da água são as mesmas que controlam o setor elétrico, como por exemplo a Odebrecht e Suez.

 

“Devemos entender o tema da água hoje num contexto internacional, onde o processo de privatização avança a passos largos. A iniciativa privada, através das grandes corporações, está se apropriando dos rios através de barragens e do hidronegócio e do transporte fluvial, das fontes de água para engarrafamento, e do abastecimento urbano, através do saneamento”, afirmou Gilberto Cervinski, da coordenação nacional do Movimento.

 

O Seminário Internacional: Panorama político sobre a questão da água antecede a 3ª etapa do Curso Energia e Sociedade no Capitalismo Contemporâneo, um convênio entre o MAB e o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR), da UFRJ.

 

Fonte: http://www.mabnacional.org.br

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21/06/2011 - Clima e Meio Ambiente - Santa Catarina  

Não dá mais para viver

A cidade de Florianópolis nem grande é. Tem uma parte ilha, outra continente e abriga aí umas 400 mil pessoas. Mas, apesar de não ser uma megalópole, a vida aqui é muito parecida a lugares assim. Como a cidade cresceu desordenada e sem planejamento, as ruas são estreitas e o número de carros excessivo. Prefeito atrás de prefeito, ninguém nunca se preocupou em desenvolver o transporte de massa. A cidade sempre foi pensada única e exclusivamente para os carros.

 

A coisa é tão incrível que, mesmo sendo uma cidade turística, Florianópolis deve ser a única cidade/capital do mundo a não ter uma linha de ônibus que passe em frente à rodoviária. Todos os dias chegam e saem da cidade centenas de pessoas. E não há um ônibus que passe ali. As pessoas que chegam à cidade pela via terrestre precisam arrastar suas malas até o terminal central, distante a uns 400 ou 500 metros. E quem vem dos bairros para a rodoviária passa pelo mesmo desconforto. Arrastando malas e se estressando nas ruas próximas ao terminal que são coalhadas de carro. Um desastre. Uma vergonha.

 

Nos dias de semana, uma pessoa que não tenha entrado no turbilhão das compras de carro em 60 meses, e usa o malfadado transporte coletivo, passa por um inferno digno da prosa de Dante. Poucos quilômetros são percorridos lentamente em engarrafamentos monstros. Demora-se de duas a duas horas e meia para fazer 20 quilômetros. Este ano a prefeitura inaugurou um elevado – que ficou em obras por dois anos com uma promessa de solucionar definitivamente as filas – e no primeiro dia foi um deus nos acuda. Hoje, os ônibus ficam sobre o elevado por 20 ou 30 minutos, completamente parados. São quatro vias rápidas desembocando numa via única. Coisa para enlouquecer qualquer cristão. Desastre de engenharia de trânsito.

Diante de todos esses horrores cotidianos a única possibilidade de não entrar numa de explodir em “um dia de fúria”, é a boa e velha alienação. Fico imaginando se o velho Marx vivesse neste tipo de capitalismo dependente da periferia do sistema, se ele não iria abençoar a alienação como, talvez, a única possibilidade de se manter são.

 

Eu sempre achei meio lance fraco as pessoas andarem com esses aparelhinhos de ouvir música, alienadas, no meio do turbilhão. Pois hoje eu decidi comprar um, depois de quase ter perdido a tramontana numa tarde destas. Chuva, ônibus fechado, sem ar, gente tossindo, 40 pessoas sentadas e 100 em pé, criança berrando, gente falando ao celular, outros com o celular tocando alto uma música evangélica. Pensei que fosse surtar. Bateu o terror. Está dureza demais viver nesta cidade, do jeito como as coisas vão. No meu bairro, que é pura beleza, os condomínios não param de surgir. Não há ruas, não há esgoto, não há formas de a gente se mexer com tranqüilidade. Tudo está em colapso. A cidade está em colapso. As pessoas também.

 

A certeza de tudo isso se deu numa sinaleira. Meu ônibus parou do lado de outro eu olhei para as pessoas que ali estavam com as caras emolduradas nas janelas. Seus olhares eram catatônicos, tristes, desolados, desesperadores. Minha mirada cruzou com a de outra mulher e eu reconheci nela o mesmo sentimento. Lá no outro ônibus, ela, com os olhos em fogo, via o mesmo que eu. Seres em escombros tentando sobreviver à insuportável travessia.

 

De novo pedi perdão a Marx e rezei aos deuses antigos: bendita alienação. Fechei os olhos e fiquei a escutar Cascatinha e Inhana a cantar velhas cantigas sertanejas. Única forma de sobreviver ao desastre do transporte coletivo.  Mas alguma coisa em mim diz que há um tênue fio... um tênue fio, que pode se romper...



 

Por Elaine Tavares - jornalista

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03/06/2011 - Clima e Meio Ambiente - Brasil  

MAB desenvolve tecnologia de aquecimento de água com placas solares

O chuveiro elétrico é o aparelho que mais consome energia elétrica nas residências, e tem impacto relevante na conta de energia das famílias. Com consciência desse impacto e para apresentar alternativas ao modelo energético brasileiro, o MAB está desenvolvendo projetos de uso de placas solares para aquecimento da água nos três estados do sul, em São Paulo e em Minas Gerais.

 

O pico de consumo de energia elétrica no país se dá entre as 18h e 19h, quando o chuveiro se encontra ligado em 50% das residências. Estima-se que hoje o uso de chuveiro elétrico e aquecedores representam cerca de 5% do consumo brasileiro de energia elétrica, um impacto significativo no sistema como um todo.

 

Para suprir o consumo de energia no Brasil, a opção principal é pela construção de usinas hidrelétricas, que causam impactos dramáticos sobre a biodiversidade e as populações atingidas. Outras fontes de energia utilizadas, como as termoelétricas a carvão mineral e gás, assim como as hidrelétricas, aumentam a emissão de gás carbônico para a atmosfera, contribuindo com as mudanças climáticas.

 

A energia solar é superior a qualquer outra forma de geração de energia convencional por tratar-se de uma fonte totalmente natural e limpa. Por isso, o MAB investe nessa tecnologia, que preserva os recursos naturais e contribui para diminuir o impacto sobre o aquecimento global.

 

Além disso, a utilização de placas solares contribui para a autonomia da população atingida na geração e utilização de energia, através da tecnologia de Aquecimento Solar de Baixo Custo (ASBC), cuja técnica de construção pode ser apropriada pelas famílias trabalhadoras e camponesas. Assim, a proposta se contrapõe ao monopólio da geração, transmissão e distribuição de energia, que no Brasil são concentradas por grandes empresas.

 

“Esta tecnologia está sendo desenvolvido desde janeiro de 1999, pela Sociedade do Sol (SoSol), sediada no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas da Universidade de São Paulo. Pudemos conhecer, aprofundar o debate no MAB, fazer algumas experiências e agora estamos implementando nas casas dos reassentados”, disse Verilson Gheno, militante do MAB no Paraná.

 

Em algumas regiões, o MAB também está realizando testes com placas solares comerciais para efeito de comparação com a tecnologia do ASBC.

 

 A idéia é tornar esses sistemas de aquecimento de água conhecido pela população e massificar a sua implementação, já que o sistema reduz o consumo de energia elétrica e consequentemente diminui o valor da conta de energia elétrica dos consumidores.

 

Outro objetivo da construção das placas solares é contribuir para fortalecer a organização do MAB nas regiões, pois sua implementação é feita através dos grupos de base do Movimento.

 

Economia na conta

O Movimento vem desenvolvendo esses projetos no sul do país e em alguns estados do sudeste, onde as baixas temperaturas impõem uma maior necessidade de água aquecida nas residências. Uma experiência feita na casa de uma família no município paranaense de Dois Vizinhos mostrou que a utilização desse sistema resultou em uma economia de 88,5 kWh em um mês. Isso representou uma economia de R$ 11,15, considerando que a família vive na zona rural (tarifa energética de R$ 0,18 por kWh, com subsídio). Se a família morasse na cidade Se a família morasse na cidade (R$ 0,44 o kWh), a economia chegaria a R$ 27,25 por mês.

 

Fonte:

http://www.mabnacional.org.br

 

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24/05/2011 - Clima e Meio Ambiente - Santa Catarina  

Campeche se mantém unido e mobilizado pelo Plano Diretor

Sábado, oito e meia da manhã. De todos os cantos da comunidade começaram a chegar as gentes. Mais uma vez, o povo ligado a cerca de 20 entidades de organização e de luta do bairro se reunia para rememorar a construção do Plano Diretor Participativo, proposta de organização e planejamento que durante mais de quatro anos foi consolidada pela comunidade do Campeche. Diante das notícias de que a prefeitura deverá encaminhara à Câmara de Vereadores, no próximo mês, o plano elaborado pelo Instituto Cepa, os movimentos locais entenderam que seria bom fortalecer as propostas já construídas pelos moradores. No encontro, foram apresentados o histórico da luta e as resoluções no campo do zoneamento ambiental, zoneamento urbano, sistema viário e mobilidade, e cultura.  


A batalha por um plano diretor com cara do povo daqui não é de hoje, vem desde o início dos anos 80 do século passado. Naqueles dias, quando a cidade de Florianópolis começou seu processo de inchaço, as lideranças locais, antenadas com a realidade do município principiaram um movimento que buscava delimitar regras para o bem-viver no bairro. Esse desejo se concretizou na organização dos surfistas locais que, dispostos a preservar as ondas, acabaram por criar um movimento de cuidado com o bairro que nunca mais parou. Nos anos 90, os surfistas, as associações de moradores e outros tantos movimentos que passaram a se organizar no bairro deram início a um processo de elaboração de Plano Diretor Comunitário e Participativo. Esse trabalho culminou em 1997 quando, no Primeiro Seminário Comunitário de Planejamento foi apresentado o Dossiê Campeche, com todas as demandas levantadas pelos movimentos locais. A prefeitura, como sempre surda aos interesses das pessoas, não levou em consideração as demandas da comunidade e, em 1999, entrega à Câmara de Vereadores um projeto próprio. O Campeche não desanimou, constituiu o seu Plano Diretor e no ano 2000 apresentou sua proposta aos vereadores. Seria, então, o primeiro bairro da cidade a ter o seu próprio plano, fruto de organização interna.


Mas, apesar da luta e da mobilização, os vereadores também ignoraram as propostas do Campeche, só que por ali ninguém desanimou. Com idas e vindas, os movimentos locais se reuniam e discutiam, melhorando e atualizando o dossiê construído em 1997. Também seguiam criticando e lutando contra o plano da prefeitura, feito sem participação popular. No ano de 2006 foi criado o Conselho Popular da Planície do Campeche, mais um instrumento de luta que iria unir os movimentos numa só bandeira: a retirada do plano da prefeitura da Câmara de Vereadores. A batalha foi larga, mas a vitória veio.


No ano de 2007, o Campeche realizou o Segundo Seminário Comunitário de Planejamento e convidou o Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF) para voltar ao debate sobre a participação popular na construção do projeto para a cidade. E foi esta luta iniciada no bairro, depois espraiada para outras comunidades, que garantiu o início do processo do Plano Diretor Participativo. “Na hora de organizar como seria esse trabalho, nós lutamos e garantimos que houvesse a representação dos Núcleos Distritais e que fossem realizadas audiências públicas. Foram realizadas 13 destas audiências e era a primeira vez que a população da cidade discutia de verdade sobre o plano diretor”, conta Janice Tirelli, representante do Campeche no Núcleo Gestor Municipal.  


No que diz respeito ao Campeche, a comunidade logo começou a se organizar realizando Oficinas Temáticas para discutir em profundidade temas como mobilidade, zoneamento ambiental, zoneamento urbano, cultura etc... Durante todo o ano de 2007 muitas foram as reuniões, debatendo, inclusive, a possibilidade de tomada do antigo Campo de Aviação, para a construção de um parque, coisa que nunca houve no bairro. Mas, o ano de 2008 chegou e com ele o processo eleitoral que acabou imobilizando o processo do plano diretor participativo. Ainda assim, o núcleo do Campeche realizou oficinas e seminários visando incorporar cada vez mais os desejos da comunidade. 


Em 2009 a prefeitura voltou a mexer com o tema, mas também já iniciando os contatos com o Instituto Cepa, o que deixou todo mundo com a pulga atrás da orelha. Se as comunidades estavam fazendo o trabalho, que necessidade havia de contratar um instituto para desenhar o plano? Com um olho pregado nas artimanhas da prefeitura o Núcleo Distrital do Campeche seguiu seu trabalho. Dividiu o bairro em norte e sul, realizou reuniões setoriais e conseguiu desenhar todos os mapas, trabalho de difícil confecção. Por outro lado, a participação sempre foi significativa, o que permitiu o desenho dos mapas dentro das demandas comunitárias já há mais de 20 anos discutidas. 


Com a decisão da prefeitura de suspender todo o processo em 2010, o núcleo do Campeche decidiu registrar em cartório todo o trabalho realizado, relatórios e mapas. Assim, ninguém haveria de poder dizer que a comunidade não tinha finalizado o trabalho e definido de forma bem clara o que quer para sua vida.


A vocação do bairro 


Desde o ano de 1980 até os dias atuais muita coisa já mudou. A especulação imobiliária estendeu seus braços para a região sul e tem descaracterizado bastante a comunidade, apesar da sistemática luta. Prédios, florestas devastadas, rios poluídos, praia degradada, dunas destruídas, restinga invadida, ruas engarrafadas. É coisa demais. Agora, nas discussões do Plano Diretor, os moradores sabem que algumas coisas não podem mais ser recuperadas, mas também reconhecem que ainda há muito para preservar.

 

No debate deste sábado, a vocação da comunidade, discutida e decidida nas dezenas de reuniões ao longo dos anos, foi reafirmada com todas as letras: o Campeche quer continuar sendo um bairro residencial de caráter urbano-rural, garantindo a continuidade das pequenas chácaras, com o desenvolvimento de um turismo comunitário e não predador, como o já registrado em lugares no norte da ilha. “Nós definimos nossa comunidade como um bairro-jardim, com ênfase na cultura da pesca, da pequena agricultura, com a preservação da água do nosso lençol freático, da nossa história que é rica demais, da nossa cultura. É isso que queremos preservar, os nativos e os que escolheram esse lugar para morar”, diz Janice.

 

Também foi sublinhada a necessidade da preservação dos espaços públicos que são cultura também, como a Lagoa da Chica, o Morro do Lampião, a lagoa Pequena, a orla marítima com suas dunas. A vocação do Campeche está voltada para as pessoas e não para agentes especulativos, e disso ninguém abre mão!


A geografia não é detalhe


E é por conta da ênfase na preservação do que ainda não foi destruído que o Plano Diretor pensado para o Campeche insiste em definir muito bem a geografia do lugar, para que os moradores entendam onde estão e o que precisam defender. O Campeche é forma por um maciço, no qual está o Morro do Lampião e uma Planície Sedimentar. Impedir a destruição e o desmatamento no Morro do Lampião é papel de quem vive na planície, porque é esta vegetação do morro que evita erosão e protege as nascentes, retendo a água da chuva e garantindo a biodiversidade. “Se o morro começa a ser ocupado, as chances de problemas na planície são grandes”, afirma Luis Gabriel, estudante de Engenharia Ambiental. 


Na área da planície o papel da restinga e das dunas é de fundamental importância para a vida das famílias. Se começam a construir prédios na região da restinga, as dunas ficam sem o seu mecanismo de fixação e começam a se mover, podendo invadir casas e espaços já construídos. Por outro lado, se as dunas se movem, o mar também avança terra adentro, causando ressacas cada vez maiores, como já se registraram no verão de 2011. Ocorre que as dunas formam uma parede natural entre o mar e o ambiente terrestre, conformando um espaço bastante frágil, que não deve ser mexido, sob pena de grandes alterações ambientais. Esta é uma constatação científica e não dar ouvidos aos mecanismos da natureza é arriscar a vida da comunidade. 


O solo da região da planície também é bastante peculiar. Arenoso, poroso, tem uma drenagem natural bastante boa, daí a necessidade de não impermeabilizá-lo com asfalto, por exemplo. Se as ruas forem calçadas com lajota, a permeabilidade se mantém e a drenagem impede alagamentos e enxurradas. Não atentar para isso é promover desgraça mais hoje, mais amanhã. 


Igualmente, por sua porosidade, o solo armazena muita água, configurando um rico aqüífero de mais de 105 bilhões de litros de água pura que precisa ser preservado. Daí a luta contra o rebaixamento do lençol freático que pode levar a salinização da água. Todas estas questões devem ser levadas em conta quando se autoriza uma construção. Por isso, no plano do Campeche se mantém a proposta de casas e prédios de até três andares, para que seja respeitada a fragilidade dos ambientes. 


A especulação avança

 

No que diz respeito à ocupação do solo, a comunidade tem respondido com luta ao processo de especulação imobiliária, como bem mostrou o relato de Fernando Cardenal. E isso acontece porque o plano diretor pensado durante todos esses anos não aceita a idéia de verticalização. No trabalho já desenhado pela comunidade estão previstas áreas verdes, a proteção da orla marítima, a criação de ciclovias e bulevares em vez de grandes avenidas, o desenho delimitado das áreas residenciais e comerciais, com proteção da restinga e das dunas.

 

Nos últimos meses tem sido igualmente intensa a mobilização contra a burlagem das leis por parte das empresas de grandes condomínios que realizam rebaixamento de lençol freático para construção de garagens subterrâneas. Muitas vitórias foram garantidas justamente pelo cuidado e pela vigilância sempre atenta dos moradores, com especial destaque ao presidente da Associação dos Moradores do Campeche (AMOCAM), Ataíde Silva, que tem atuado sistematicamente na observação das novas obras e na fiscalização do serviço de saneamento constituído pela Casan. Essa obra, ainda incompleta, recebe, por parte de moradores irresponsáveis, ligações clandestinas de esgoto, que precisam ser descobertas e lacradas. Todo o grupo de trabalho do Plano Diretor participa deste processo de cuidado com a comunidade.

 

Sistema Viário

 

Falar em mobilidade na cidade de Florianópolis é fazer aflorar o estresse. Pensada unicamente para os carros, a capital vive cotidianamente engarrafamentos monstros sem que haja qualquer preocupação por parte do governo municipal com o transporte de massa. Obras de alargamento de vias só fazem aumentar o fluxo e a construção do elevado do Trevo da Seta tornou a vida dos moradores do sul da ilha ainda mais caótica, uma vez que a paralisação do trânsito deixou de ser pontual para tornar-se coisa de tempo integral. Chegar ou sair do bairro agora é coisa de horas.

 

Na proposta de plano diretor da comunidade há toda uma outra lógica de mobilidade no sistema viário pensado. A malha viária planejada tem de ser coerente com o numero de pessoas, dão ser impossível pensar em mobilidade se houver o adensamento populacional que a prefeitura deseja para o sul. “O mundo não pode vir para Florianópolis. Isso aqui tem uma capacidade de água, de saneamento e de mobilidade”, diz Ataíde Silva. No plano, o transporte de massa é prioritário, via metrô de superfície, que inclusive pode ajudar a proteger o mangue, impedindo a ocupação, proteção dos caminhos históricos e nativos, respeitando a cultura local, integrar de verdade o transporte urbano e impedir a construção de avenidas na beira mar. “Nossa prioridade é a proteção da restinga e das dunas, que equilibram a vida e protegem a comunidade”.     

 

A cultura está viva

 

Telma Piacentini trouxe um pouco da história cultural do Campeche num vídeo que deixou todo mundo bastante emocionado. Desde os primeiros moradores, a presença de Saint Exupéry, o trabalho dos pescadores, do povo dos engenhos, do boi-de-mamão, a Feira do Cacareco, o Balaio, festas comunitárias, coisas que unem as gentes em memórias remotas e em processo atuais de preservação da história e da vida em comunidade. O trabalho dos pintores, que retratam a vida exuberante do lugar, a música local, a religião, tudo o que acaba servindo de ponte subjetiva para a constituição desta coisa única que é a idéia de comunidade, gente batalhando pelo bem-viver de todos.

 

No plano do Campeche está prevista a preservação do casarão que serviu de base ao campo de aviação, cheio de memórias da vida local, a construção de parques culturais e científicos, recuperação dos folguedos antigos, das tradições, coisas que forma o patrimônio imaterial e que seguem vivas na cabeça de cada um. Para cada ponto há todo um planejamento. Não são meros princípios, são coisas concretas e muito bem definidas.  

 

O futuro

 

E assim passou-se a manhã de sábado, com uma excelente participação comunitária. Gente de outros lugares como o Pântano do Sul, Ribeirão da Ilha, pessoas que se preocupam em preservar o que a região de tem de mais importante que é a sua natureza, o home e a mulher aí incluídos. “Porque não dá para separar”, como bem diz Gert Shinke, do Movimento Saneamento Alternativo (MOSAL).

 

Feito todo esse trabalho e recuperação das propostas do Plano Diretor agora a proposta é disputá-lo junto à prefeitura. A comunidade apontou a necessidade de realizar uma maior divulgação junto aos novos moradores que estão chegando agora e desconhecem o processo, buscar um envolvimento destas pessoas com o cuidado com o bairro e apostar na relação com as crianças, para que possam engajar-se desde agora na luta por uma comunidade que pratique o bem-viver.

 

Dentre as proposta de caráter mais político, salientou-se a necessidade de discutir e desmistificar a idéia de progresso que vem embutida nas propostas das grandes empresas de construção que estão invadindo o bairro. Progresso não significa destruição, tem de ser possibilidade de vida boa e bonita para todos e não só para alguns. “O sul ainda é uma grande mancha verde no mapa da cidade. Temos de manter isso fazendo uma Aliança do Sul Pela natureza. Isso nos unifica”, diz Gert.

 

E assim, entre poesias, declarações de amor e propostas de luta o Campeche afinou o discursos e afiou as armas para enfrentar mais um grande e feroz batalha contra o plano autoritário e predador que está sendo proposto pela prefeitura.

 

Nestes lados do sul se levantam os brados, coletivos e comunitários, preparados para o combate.

 

Por Elaine Tavares – Jornalista

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11/04/2011 - Clima e Meio Ambiente - Brasil  

Atingidos pela Foz do Chapecó cobram soluções de Minas e Energia e empresa

Uma audiência, na última segunda-feira (28), em Chapecó, entre o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a empresa que construiu a usina Foz do Chapecó e representantes do Ministério de Minas e Energia, definiu rumos às negociações para que as famílias prejudicadas pela usina tenham efetivamente acesso a indenizações justas e ao reassentamento imediato. Parte das 1,5 mil propriedades atingidas não conta, ainda, com soluções para que as pessoas prossigam suas vidas.

 

Segundo o deputado Padre Pedro, a audiência era uma reivindicação antiga dos atingidos, que realizaram inúmeras mobilizações para conseguir reunir Governo Federal e empresa ao mesmo tempo, para encaminhar soluções aos problemas das famílias. "A usina já está funcionando, mas as famílias seguem vivendo uma incerteza que as prejudica individualmente, tanto quanto prejudica toda a região. Eram pessoas que estavam trabalhando, produzindo e com uma caminhada já consolidada em suas vidas", afirmou.

Veja a pauta de reivindicações apresentada na audiência:

 

REASSENTAMENTO DE MANGEIRINHA

- Preencher imediatamente os lotes vagos no reassentamento

- Identificar os casos de famílias que tiveram indenização e reassentamento negados, para completar a listagem.

- Se necessário, obrigar a empresa Foz do Chapecó a buscar outra área para reassentar.

 

LIBERAÇÃO IMEDIATA DO PRONAF A

- Os assentados não estão conseguindo acesso ao crédito.

- Necessidade urgente de audiência com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, para que assuma a responsabilidade em relação ao problema.

 

PAGAMENTO DOS VALORES DOS LOTES DESTINADO À COMUNIDADE

- O objetivo é garantir que os valores que deveriam ser pagos à empresa sejam revertidos para a comunidade, como incentivo à produção. E empresa, no entanto, resiste.

 

ASSISTÊNCIA TÉCNICA

- Solicitação para que seja realizada a partir de um planejamento de produção.

- também seja utilizada mão de obra de técnicos que vivem no reassentamento.

 

PESCADORES

- Assinatura imediata dos convênios para construção dos pontos de apoio. A empresa se comprometeu a iniciar a construção tão logo a FATMA autorize.

- Continuidade do salário de apoio para todos os pescadores até o termino da construção dos pontos. Conforme a Foz do Chapecó, o auxílio será de até um ano e as verbas estão garantidas.

- Viabilizar um estudo de viabilidade na produção de peixes para fortalecer Programa de Apoio à Pesca para produção pesqueira na montante do lago e jusante.

- Acertar situação de pescadores que estão com os direitos negados. (cerca de 30 famílias)

- Programa de Habitação (Reforma e Casa Nova) para os pescadores.

 

DIREITO NEGADO

- Reassentar ou remanejar as famílias que tiveram direitos negados (mais de 150 conforme lista apresentada em Julho de 2010).

- Vistoria em propriedades isoladas e áreas que foram usadas como reassentamentos de famílias atingidas, em que os lotes são inferiores a 12 hectares. O objetivo é classificar estes locais como propriedades "inviáveis".

- Organizar uma comissão para revisão das famílias que tiveram direitos negados, sem terra e com áreas inexpressivas, composta pelo MAB, MME, IBAMA, e Foz do Chapecó.

- Compensar a perdas econômicas das linhas de ônibus, professores, linhas de barca e municípios que estão enfrentando prejuízos pela construção da usina.

- Será formada uma comissão com representantes do MAB, Ministério ME, IBAMA, Foz do Chapecó, MPA e em 20 dias a equipe começa a verificar caso a caso.

 

PROJETO DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL

- Garantia de um programa de reestruturação, recuperação, preservação e desenvolvimento das comunidades e municípios com a liberação de Linha especial de Crédito para custeio e investimento no valor de R$ 10.000,00, a fundo perdido, para as famílias ribeirinhas.

- Liberação imediata do projeto de reestruturação da comunidade de Volta Grande, em Alpestre, no RS.

- Uma equipe menor de profissionais irá discutir caso a caso.

- Imediata melhoria da ligação entre São Carlos e Chapecó, pavimentação asfáltica entre a comunidade de Volta Grande e a cidade de Alpestre, liberação do acesso na barragem que liga SC e RS.

- Em 60 dias será liberado.

- A Foz do Chapecó fará uma reunião com a Comunidade Volta Grande.

 

PROJETO ALTO URUGUAI

- Ampliação dos biodigestores na região.

- O MAB vai ampliar o número de municípios.

- A Eletrosul está assumindo mais projetos e recursos.

- Será feito contato com Marcio Zimermann para encaminhamentos.

- Fazer intercâmbio com o Haiti na questão dos biodigestores.

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01/04/2011 - Clima e Meio Ambiente - Região  

FEIJÃO–Situação desesperadora

Taquaruçu de Cima, Fraiburgo SC - A safra 2010/11, foi uma das piores dos últimos anos. O investimento com a lavoura foi bem alto, principalmente com referência ao controle de pragas nas plantas por motivos dos extensos dias de chuvas que caiam em nossa região. Para piorar ainda mais a situação, as chuvas não pararam nem na época da colheita.

 

Os agricultores arrancaram a lavoura, mas o tempo não colaborou, sendo que o feijão teve que ser virado três a quatro vezes comprometendo a qualidade e o armazenamento do produto. As lavouras tiveram uma perda de 60% a 70%, em alguns casos 100%, deixando o produtor com sérios problemas financeiros. Tem famílias que perderam até a produção de subsistência. Boa parte da safra foi colhida com sementes já brotadas, e para não perder tudo, os agricultores tratavam os animais com esse produto.

 

O agricultor Adelmo Bogo comenta: “Nunca passamos por um processo de colheita tão difícil que nem esse ano. O tempo não colaborou, o feijão estragou na roça, o preço baixo e a tentativa de colher o produto acarretou ainda mais prejuízos; isso se dá no processo desde a contratação de terceiros para arrancar o feijão, depois a secagem, limpeza e classificação dos grãos”. Adelmo finaliza dizendo apesar de tudo, tem esperança de continuar no campo e plantar novamente.  

 

O seguro agrícola foi acionado por vários produtores, esperamos que a burocracia para liberação desse recurso não seja pior do que a colheita da safra. No entanto, nesses últimos dias, as colheitas ocorreram tranqüilas, mas o prejuízo registrado está deixando muita gente sem dormir. Para sanar um pouco desse prejuízo, alguns agricultores estão desfazendo de seus bens (máquinas, veículos, gado...), pelo menos, para ter acesso a financiamentos esse ano. Só não está pior, porque graças a Deus aqui não tem terremoto e maremoto como no Japão.

 

Fonte: O Taquaruçu - http://otaquarucu.blogspot.com

Contatos: otaquarucu@yahoo.com.br

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29/03/2011 - Clima e Meio Ambiente - Santa Catarina  

Mover-se em Florianópolis não é para qualquer um

Florianópolis completou 285 anos no dia 23 de março e muito pouco há para a maioria da  população comemorar. Cada dia que passa a cidade vai se perdendo cada vez mais das gentes. No governo de Dário Berguer, atual prefeito, foi decidido fazer um Plano Diretor Participativo e as pessoas, nos bairros, chamadas a pensar e planejar a cidade a partir de seus pontos de vista e necessidades. Foram quatro anos de reuniões, debates, oficinas, encontros e audiências públicas. Algumas comunidades mais, outras menos, mas todas elas foram constituindo seu projeto de bairro e de cidade. Tudo caminhava para um feliz final quando o prefeito decidiu suspender tudo. E aquilo que havia sido construído coletivamente pelas forças em movimento na cidade, foi entregue a uma empresa privada. Outro plano surgiu, sem a cara e sem as demandas do povo.  Um plano artificial, sem participação comunitária. Por isso, no dia da audiência pública, em 18 de março de 2010, que iria referendar o plano da prefeitura, as comunidades se uniram e barraram o processo. Agora, passado um ano desta vitória histórica, o plano diretor de Florianópolis ainda não foi votado pela Câmara.

 

Mas, isso não significa que o governo municipal não esteja agindo. Na prática está movendo o plano pensado pela empresa privada, segundo os interesses dos grandes empresários. Não é sem razão que os órgãos “competentes” seguem liberando licenças para construções e a cidade continua sendo planejada sem levar em conta o que foi construído pelas comunidades.

 

Exemplos desta ação do governo no sentido dos interesses dos grandes empreendimentos podem ser vistos no Campeche e no Pântano do Sul onde pululam construções de condomínios por toda a parte. Obras sem licença ambiental, fora dos padrões da lei vigente, verdadeiras bombas destruidoras do ambiente e da qualidade de vida. Há cerca de duas semanas a comunidade do Campeche, por exemplo, conseguiu, com a ação da polícia ambiental, fechar várias bombas que drenavam água do lençol freático sem qualquer licença, num condomínio que planejava garagens subterrâneas, burlando visivelmente a lei. Ainda assim, só depois de três meses de intensa luta as bombas foram desativadas. Agora, a empresa tirou os trabalhadores do local e água está afetando as casas vizinhas. Uma irresponsabilidade total que se faz sem qualquer punição.

 

Outro exemplo foi a realização de um mega-show com o músico estadunidense Ben Harper, planejado sem qualquer licença, em áreas de proteção ambiental. Apenas a denúncia insistente da comunidade fez com que alguns mecanismos de proteção do ambiente fossem efetivados. Mesmo assim, as licenças ambientais foram dadas em tempo recorde, totalmente fora dos prazos, mostrando que o governo municipal se rende completamente aos interesses dos megaempreendimentos. O show era promovido pela AMBEV e a prefeitura, dois dias antes, se responsabilizou por tudo. Coisa que seria impensável se o evento fosse uma quermesse comunitária.

 

Os carros como senhores das ruas

Agora, no mês do aniversário da cidade, a prefeitura oferece à Florianópolis uma obra que mostra o quanto o governo segue surdo aos interesses da população e continua realizando coisas que só garantem lucros para grupos muito fechados. É o caso do elevado do trevo da seta, uma obra que desde que foi proposta recebeu o rechaço das pessoas que moram no sul da ilha. Qualquer criança pequena já sabia que a idéia de um elevado que desaguasse quatro pistas de alta velocidade numa única saída para o sul causaria o maior engarrafamento. Foram feitas análises, protestos e, junto com a discussão do plano diretor, foram oferecidas alternativas muito mais interessantes. Mas, a prefeitura não escutou. Seguiu com seus planos.

 

A grande reivindicação de quem mora no sul da ilha era por um trem de superfície. Transporte de massa, capaz de carregar centenas de pessoas de forma rápida e eficaz, saindo do modelo do transporte atual que consegue transformar um trajeto de 20 quilômetros em duas horas de sofrimento e estresse. Todo o projeto foi apresentado nas audiências públicas. O trem margearia o mangue, servindo, inclusive, de proteção, evitando assim que construções fossem adentrando pela região que é um criadouro de vida marinha. Para a prefeitura a proposta aparecia como inviável por ser muito cara.

 

Agora, com elevado da Seta, a prefeitura gastou 16 milhões de reais e acabou trocando seis por meia dúzia. Então, se investir no trem era caro, imagine o que é perder 16 milhões sem qualquer melhoria para o transporte do sul da ilha. No dia em que o elevado foi aberto ao público, as filas se formaram por longas horas. E o que era a espera desesperada no canteiro de obras, se fez, gloriosa, sobre o belo elevado. Dentro do ônibus, parado por intermináveis minutos, as pessoas observavam o caminho para o aeroporto totalmente deserto. “Essa obra é só para os ricos que pegam avião. A gente segue aqui, feito gado”, reclamavam as vozes anônimas fechadas, no calorão do final da tarde, dentro do ônibus parado.  Era como se, finalmente tivesse caído a ficha, e todo o protesto feito pelos movimentos sociais, que haviam sido rechaçados como sendo “coisa de eco-chato”, agora fizesse sentido.

 

Na verdade a cidade de Florianópolis nunca foi pensada para as pessoas. Aqui imperam os carros e o “business”. O sistema viário só se preocupa com o transporte individual. O coletivo é ignorado. Todas as mudanças que acontecem visam desafogar as artérias para os veículos particulares. Abundam as lojas de venda de carro e os financiamentos em 60 meses. Segundo o Departamento Estadual de Trânsito, a cada dia, circulam mais 27 novos carros. Em Florianópolis a relação entre população e carro per capita está em 1,9. Em 2010 a frota chegava a 270.463 carros na cidade. Ou seja, há um carro para cada duas pessoas. Isso pode parecer uma loucura, mas é fruto da completa incapacidade da prefeitura em organizar a cidade para que as pessoas possam se mover com qualidade. Tanto que é conhecida como uma das cidades com pior mobilidade urbana do mundo.

 

Todas as propostas que surgem de transporte de massa não passam da apresentação da idéia. Afinal, investir em trem, por exemplo, seria mudar todo o sistema, que já é feito para o lucro desenfreado dos poucos empresários que controlam as empresas de ônibus. Todas as linhas são loteadas, não há qualquer concorrência entre as empresas. O usuário é completamente refém deste tipo de transporte e não consegue encontrar alternativa. Como a cidade é pensada para os carros, nem mesmo a bicicleta consegue aparecer como saída. É praticamente uma ação suicida andar pelas ruas de Florianópolis montado em uma magrela. Atravessar para o continente, então, nem pensar. Não há ciclovias nas duas pontes que fazem a ligação. O que há são passarelas, sob a ponte, escuras, sujas e sem qualquer segurança.

 

Ainda no mês de março também o novo governador do Estado, Raimundo Colombo, igualmente enredado na mesma lógica da cidade para carros, lançou, através do Departamento estadual de Infraestrutura (Deinfra), a idéia de mais uma ponte unindo a ilha ao continente. A imprensa comprou a agenda e, durante dias, divulgou os desenhos ultramodernos da possível estrutura. Outra proposta que não leva em conta a necessidade das quase 200 mil pessoas que amargam o transporte coletivo da capital. Ao que parece só quem vai lucrar com essa idéia são as empreiteiras que farão a obra. Mesmo assim, a Assembléia Legislativa aprovou o Plano Plurianual que contém esta proposta. Ora, as absurdas filas que se formam no final da tarde, para quem precisa voltar para o continente certamente não vão diminuir com mais uma ponte. Pelo contrário. Quando menos se investe em transporte público, mais as pessoas procuram saídas individuais para tentar fugir da loucura que é viver nesta cidade. E aí, são mais carros nas ruas, num círculo que não tem fim. Nos últimos meses, a saída são motos, o que já tem provocado um aumento expressivo de acidentes. Segundo os diretores dos hospitais, 90% dos que chegam as emergências são vítimas de acidente com moto. Virou uma epidemia, sem que haja qualquer medida de redução de danos. É que ninguém mais agüenta o transporte coletivo do jeito como está.

 

Qualquer grande cidade do mundo já compreendeu que as pessoas que têm um bom transporte coletivo não fazem uso do carro. Com isso economiza-se energia, preserva-se o ambiente e as pessoas circulam com mais rapidez e eficácia. Isso já é coisa completamente incorporada nas políticas públicas destes lugares. Na Europa é coisa comum e na América Latina é caminho cada dia mais seguido.

 

Florianópolis parece não compreender que uma cidade com vocação turística, como seus governantes alardeiam, precisa garantir, no mínimo, a mobilidade das pessoas. Mas, como bem define o sistema capitalista de produção, os interesses de pequenos grupos se sobrepõem aos da maioria.

 

Hoje, um trabalhador que se utilize do transporte coletivo e que more num bairro há mais de 10 quilômetros do centro, perde quatro horas do seu dia dentro do ônibus ou nos terminais de baldeação. Algo praticamente inaceitável. Talvez a saída seja os sindicatos começarem a reivindicar estas horas nas suas negociações salariais como horas extras, a serem pagas pelos patrões. Afinal, nesta cidade, o ônibus só serve para isso mesmo: levar as pessoas ao trabalho. Raros são os que arriscam sair de casa no final de semana para passear. Uma saída de ônibus no domingo pode se transformar num transtorno tão grande que a pessoa acaba preferindo ficar em casa. Quem sabe se o patrão sentir essa fisgada no bolso, não começa a dar ouvidos às propostas que já existem e que não são levadas em conta.

 

A cidade de Florianópolis é um monumento à incompetência e ao servilismo aos grandes empresários. Aqui só o que interessa são os “negócios”, e de alguns. Alguns muito poucos!

 

Por Elaine Tavares.

 

Charge: Cícero.

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28/03/2011 - Clima e Meio Ambiente - Brasil  

MAB bloqueia BR 364 em Rondônia

No início desta manhã (28/03), por volta da 7h00m, mais de trezentos manifestantes, formado por trabalhadores, agricultores e atingidos pela barragem da Usina Hidrelétrica de Samuel, paralisam a rodovia BR 364, no kilômetro 100, próximo ao município de Itapuã do Oeste.

 

A ação é organizada pelo Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB, que realizou uma assembléia na tarde de ontem em Itapuã do Oeste, com participação de atingidos dos municípios de Candeias Jamari, Itapuã do oeste e do Distrito de Triunfo. A atividade contou com a parceria de organizações, sindicatos e uma comissão de moradores de Itapuã.  Segundo lideranças do movimento, compareceram na assembléia mais de 600 pessoas, momento em que debateram a dívida histórica social do processo de construção da usina de Samuel e definiram uma pauta de reivindicações.

 

Entre os pontos da pauta estão um plano de recuperação e desenvolvimento dos municípios atingidos pela usina, o reassentamento de famílias e ações de fortalecimento da pesca e da aqüicultura na região.

 

De acordo com Cazu, coordenador estadual do MAB, o ato também é uma manifestação de solidariedade à revolta dos trabalhadores de Jirau e a greve dos operários da usina de Santo Antônio. A paralisação da rodovia é por tempo indeterminado e exigimos audiência com a ELETRONORTE, com governador do estado e INCRA, afirmou.

CONTATO – Assessoria de Imprensa: (69) 9243-9264

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24/03/2011 - Clima e Meio Ambiente - Mundo  

Eduardo Galeano homenageia militantes da água

O escritor Eduardo Galeano recebeu terça-feira (22) o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Nacional de Cuyo, na Argentina, e dedicou o mesmo aos militantes da água “que em Mendoza e muitas outras comunidades do mundo lutam contra as mineradoras que a contaminam, as empresas florestais que a secam e contra todos os que traem a natureza, convertendo a água em um negócio e não um direito de todos”. “A água é e quer seguir sendo um direito de todos”, disse Galeano.

 

O ato ocorreu no Salão de Grau da Universidade, cuja transmissão teve que ser exibida em outras duas salas pela grande quantidade de assistentes, a grande maioria deles estudantes, que não economizaram aplausos para celebrar a presença e as palavras do novo doutor.

Em sua exposição, Galeano fez uma referência aos bicentenários que diferentes países da América Latina celebram nestes anos. “A independência segue sendo uma tarefa inconclusa e é necessário memória para completá-la”. Falando sobre a memória, Galeano exaltou o “primeiro país independente e livre da América, o Haiti”. Ainda que os Estados Unidos tenham proclamado sua independência em 1776, “os 645 mil escravos seguiram sendo escravos”. Em troca, em 1804, no Haiti foi proclamada a independência e se libertaram os escravos. Esse fato “resultou imperdoável” para os antigos dominadores que “exigiram ao Haiti o pagamento, durante um século e meio, da dívida francesa e o condenaram, até hoje, à solidão, o desprezo e a miséria”.

 

Citou o Paraguai como outro exemplo. “Esse país desobediente e sem dívida foi destruído em nome da liberdade de comércio”, em cujo “prontuário” figura “a imposição do ópio na China e a destruição de ateliers na Índia por parte da rainha Vitória, da Inglaterra”. No marco do rio da Prata, evocou as figuras de Mariano Moreno e Juan José Castelli, membros da Primeira Junta, qualificados como “muito perversos” por aqueles que “sequestraram a Revolução” e defenestrados do processo.

 

Galeano também fez uma menção especial ao educador venezuelano Simón Rodríguez “El Loco”, a quem definiu como “o mais audaz e adorável dos pensadores latino-americanos”, apesar de ser “um perdedor” devido às perseguições que sofreu, mas não por isso menos importante, porque “na memória dos perdedores, ali está a verdade”. Ele lembrou algumas das iniciativas “proibidíssimas” do professor de Simón Bolívar – no contexto da década de 1820 – como seu princípio de que “sem educação popular não haverá verdadeira sociedade”, ou sua audácia de “mesclar rapazes e moças na escola e o ensino de artes manuais com as tarefas intelectuais”.

Recordou a famosa frase de Rodríguez: “Imitadores! Copiem dos Estados Unidos e da Europa sua originalidade” – e se perguntou: “Por acaso não está vivo esse “Loco” nas ânsias e ações de independência de nossos povos”.

 

O escritor finalizou sua exposição com a evocação do uruguaio José Artigas, “a voz mais profunda destas terras” e “primeiro a realizar uma reforma agrária na América”. Recordou com ironia que os chefes da última ditadura militar do Uruguai, ao erigir um mausoléu em honra a Artigas, buscaram em vão alguma citação dele para colocar no monumento. “Não conseguiram, porque todas as suas frases eram subversivas, Então só registraram datas de batalhas. “Artigas também é um perdedor profundamente ativo”, finalizou.

 

Fonte:

http://www.uncu.edu.ar/novedad/item/eduardo-galeano-palabra-y-memoria-de-america-latina


18/03/2011 - Clima e Meio Ambiente - Mundo  

Capitalismo: risco de ecocídio e de biocídio,

O capitalismo é um modo de produção social e uma cultura. Como modo de produção destruiu o sentido originário de economia que desde os clássicos gregos até o século XVIII significava a técnica e a arte de satisfazer as necessidades da oikos, Quer dizer, a economia tinha por objetivo atender satisfatoriamente as carências da casa, que tanto podia ser a moradia mesma, a cidade, o país quanto a casa comum, a Terra. Com sua implantação progressiva a partir do século XVII do sistema do capital – a expressão capitalismo não era usada por Marx, mas foi introduzida por Werner Sombart 1902 – muda-se a natureza da economia. A partir de agora ela representa uma refinada e brutal técnica de criação de riqueza por si mesma, desvinculada do oikos, da referência à casa. Antes pelo contrário, destruindo a casa em todas as suas modalidades. E a riqueza que se quer acumular é menos para ser desfrutada do que para gerar mais riqueza numa lógica desenfreada e, no termo, absurda.

 

A lógica do capital é essa: produzir acumulação mediante a exploração. Primeiro, exploração da força de trabalho das pessoas, em seguida a dominação das classes, depois a submissão dos povos e, por fim, a pilhagem da natureza. Funciona aqui uma única lógica linear e férrea que a tudo envolve e que hoje ganhou uma dimensão planetária.

 

Uma análise mesmo superficial entre ecologia e capitalismo identifica uma contradição básica. Onde impera a prática capitalista se envia ao exílio ou ao limbo a preocupação ecológica. Ecologia e capitalismo se negam frontalmente. Não há acordo possível. Se, apesar disso, a lógica do capital assume o discurso ecológico ou é para fazer ganhos com ele, ou para espiritualizá-lo e assim esvaziá-lo ou simplesmente para impossibilitá-lo e, portanto, destruí-lo. O capitalismo não apenas quer dominar a natureza. Quer mais, visa arrancar tudo dela. Portanto se propõe depredá-la.

Hoje, pela unificação do espaço econômico mundial nos moldes capitalistas, o saque sistemático do processo industrialista contra natureza e contra a humanidade torna o capitalismo claramente incompatível com a vida. A aventura da espécie homo sapiens e demens é posta em sério risco. Portanto, o arquiinimigo da humanidade, da vida e do futuro é o sistema do capital com a cultura que o acompanha.

 

Coloca-se assim uma bifurcação: ou o capitalismo triunfa ao ocupar todos os espaços como pretende e então acaba com a ecologia e assim põe em risco o sistema-Terra ou triunfa a ecologia e destrói o capitalismo ou o submete a tais transformações e reconversões que não possa mais ser reconhecível como tal. Desta vez não há uma arca de Noé que salve a alguns e deixe perecer os outros. Ou nos salvamos todos ou pereceremos todos.

Esta é a singularidade de nosso tempo e a urgência das reflexões e dos alarmes que aqui são partilhados.

 

Dizíamos que o capitalismo produziu ainda uma cultura, derivada de seu modo de produção, assentado na exploração e na pilhagem. Toda cultura cria o âmbito das evidências cotidianas, das convicções inquestionáveis e, como tal, gesta uma subjetividade coletiva adequada a ela. Sem uma cultura capitalista que veicula as mil razões justificadoras da ordem do capital, o capitalismo não sobreviveria. A cultura capitalista exalta o valor do indivíduo, garante a ele a apropriação privada da riqueza, feita pelo trabalho de todos, coloca como mola de seu dinamismo a concorrência de todos contra todos, visa maximalizar os ganhos com o mínimo de investimento possível, procura transformar tudo em mercadoria, desde a mística, o sexo até o lazer para ter sempre benefícios e ainda instaura o mercado, hoje mundializado, como o mecanismo articulador de todos os produtos e de todos os recursos produtivos.

 

Se alguém buscar solidariedade, respeito às alteridades, com-paixão e veneração face à vida e ao mistério do mundo não os busque na cultura do capital. Errou de endereço, pois ai encontra tudo ao contrário. George Soros, um dos maiores especuladores das finanças mundiais e profundo conhecedor da lógica da acumulação sem piedade (ele vive disso), afirma claramente que o capitalismo mundialmente integrado ameaça a todos os valores societários e democráticos, pondo em risco o futuro das sociedades humanas. Essa é, segundo ele, a crise do capitalismo (é o título de seu livro) que exige urgente solução para não irmos ao encontro do pior.

O capitalismo, como modo de produção e como cultura, inviabiliza a ecologia tanto ambiental, quanto social e a mental ou profunda. Deixado à lógica de sua voracidade, pode cometer o crime da ecocídio, do biocídio e, no limite, do geocídio. Razão suficiente para os humanos que amam a vida e que querem herdar aos seus filhos e filhas e netos uma casa comum habitável se oporem sistematicamente às suas pretensões.

 

Entretanto, há sinais de esperança. Já a partir dos inícios deste século, o paradigma moderno começou, teoricamente, a ser erodido pela física quântica, pela teoria da relatividade, pela nova biologia, pela ecologia e pela filosofia crítica. Estava surgindo então um novo paradigma. Ele tem um caráter contrário àquele capitalista; é holístico, sistêmico, inclusivo, pan-relacional e espiritual. Entende o universo não como uma coisa ou justaposição de coisas e objetos. Mas como um sujeito no qual tudo tem a ver com tudo, em todos os pontos, em todas as circunstâncias e em todas as direções, gerando uma imensa solidariedade cósmica. Cada ser depende do outro, sustenta o outro, participa do desenvolvimento do outro, comungando de uma mesma origem, de uma mesma aventura e de um mesmo destino comum.

 

Ao invés de ser um universo atomístico, composto de partículas discretas – universo cuja complexidade cabe ser quebrada em componentes menores e mais simples – agora este universo é considerado como um todo relacional, inter-retro-conectado com tudo e maior que a soma de suas partes. A natureza da matéria, quando analisada com mais profundidade, não aparece como estática e morta, mas como uma dança de energias e de relações para todas as direções. A Terra não é mais vista como um conglomerado de matéria inerte (os continentes) e água (os oceanos, lagos e rios), mas como um superorganismo vivo, Gaia, articulando todos os elementos, as rochas, a atmosfera, os seres vivos e a consciência num todo orgânico, dinâmico, irradiante e cheio de propósito, parte de um todo ainda maior que nos inclui: o universo em cosmogênese, em expansão e perpassado de consciência.

 

Esta visão fornece a base para uma nova esperança, para uma sabedoria mais alta e para um projeto civilizacional alternativo àquele dominante hoje, o do capitalismo mundialmente integrado. Ela nos permite passar do sentimento de perda e de ameaça, que o cenário atual nos provoca ao sentimento de pertença, de promessa e de um futuro melhor.

 

Quatro eixos dão consistência ao novo paradigma, que se distancia enormemente do capitalismo: a busca da sustentabilidade ecológica e econômica, baseada numa nova aliança de fraternidade/sororidade para com a natureza e entre os seres humanos; a acolhida da diversidade biológica e cultural, fundada na preservação e no respeito a todas as diferenças e no desenvolvimento de todas as culturas; o incentivo à participação nas relações sociais e nas formas de governo, inspiradas na democracia sem fim, como diria sociólogo português Boaventura de Souza Santos, entendida como valor universal a ser vivido em todas as instâncias (família, escola, sindicatos, igrejas, movimentos de base, nas fábricas e nos aparelhos de estado) e com todo o povo; o cultivo da espiritualidade como expressão da profundidade humana, que se sente parte do todo, capaz de valores, de solidariedade, de compaixão e de diálogo com a Fonte originária de todos os seres.

 

Este novo paradigma não é ainda hegemônico. Perdura vastamente ainda aquele da modernidade burguesa e capitalista, atomístico, mecânico, determinístico e dualista, apesar de sua refutação teórica e prática. Perdura porque é funcional aos propósitos das classes dominantes mundiais. Elas mantém o povo e até pessoas de formação elevada na ignorância acerca da nova visão do mundo. Continua a impôr um sistema global cujos frutos maiores são a dominação, a exclusão e a destruição.

 

Mas a crise ecológica mundial, expressa especialmente pelo aquecimento global, e o curto prazo que dispomos para as mudanças necessárias conferem atualidade e vigor ao novo paradigma. Ele é subversivo para a ordem vigente. Precisamos de uma nova revolução, uma revolução civilizacional. Ela será de natureza diversa daquelas nascidas a partir da revolução do neolítico, especialmente daquela propiciada pela cultura do capital. Terá por base e inspiração a nova cosmologia.

 

Mas para isso, temos que mudar nossa forma de pensar, de sentir, de avaliar e de agir. Dentro do sistema do capital não há salvação para as grandes maiorias da humanidade, para os ecossistemas e para o planeta Terra. Devemos ter mais sabedoria que poder, mais veneração que saber, mais humildade que arrogância, mais vontade de sinergia que de auto-afirmação, mais vontade de dizer nós do que dizer eu como o faz sistematicamente a cultura do capital. Por estas atitudes os seres humanos poderão se salvar e salvar o seu belo e radiante Planeta.

 

Esposamos a idéia de que estamos na crise de parto, do nascimento de um novo patamar de hominização. Podemos, sim, nos destruir. Criamos para isso a máquina de morte. Mas ela pode ser sustada e transformada. O mesmo foguete gigante que transporta ogivas atômicas, pode ser usado para mudar a rota de asteróides e meteoros ameaçadores da Terra. É a hora de darmos o salto de qualidade e inaugurarmos uma aliança nova com a Terra. A chance está criada. Depende de nós sua realização feliz ou o seu inteiro fracasso. Desta vez não nos é permitido nem protelar nem errar de objetivo.

 

Leonardo Boff é Teologia e Filosofia e autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Ecologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.


09/03/2011 - Clima e Meio Ambiente - Santa Catarina  

Evento Cultural para a criação do Parque Natural do Pântano do Sul

Você sabia que existe uma exuberante floresta, um enorme manguezal e banhado no Pântano do Sul em Florianópolis, habitados por jacarés, lontras, cutias, pacas, cágados e por graxains? Você sabia, que além das corujas, biguá, gavião carijó e chimango, maria faceira e marrequinha de pé vermelho lá existe um sítio arqueológico e um enorme aqüífero?

Pois bem, por enquanto tudo isso existe... Mas toda esta beleza está sob ameaça de dois mega empreendimentos imobiliários que querem transformar tudo isso, que é nosso, em casas, hotéis e campo de golfe...

Para que isso não aconteça precisamos criar o Parque Natural do Pântano do Sul. E sua presença no ato cultural, que acontecerá no dia 12/03, próximo sábado, às 19h30min na Escola Básica Dilma Lucia dos Santos, fará toda a diferença!

Fonte: Rádio Comunitária Campeche, 98.3FM
Travessa Iracema das Chagas Pires, No 80
Campeche, Florianópolis / SC
Fone: (48) 3237 2022
www.radiocampeche.com.br


09/03/2011 - Clima e Meio Ambiente - Mundo  

Desperdício criminoso de água pura segue sem freio

A água não é coisa para brincadeira não. Existem países no mundo que já sofrem falta deste líquido precioso e que chegam a estabelecer lutas para poder garantir o abastecimento. Pelo menos 17 países do Oriente Médio, sul da África, regiões secas da Índia e China, envolvendo um bilhão de pessoas já não conseguem manter os mesmos níveis de abastecimento que tinham no ano de 1990. Outras regiões, como 24 nações da África Subsaariana, compreendendo 348 milhões de pessoas atualmente, também precisam fazer muito esforço para conseguir água para seus povos. Em muitos destes lugares as pessoas precisam caminhar longas distâncias para conseguir uma lata de água. Segundo previsões de entidades que estudam a questão do abastecimento, em 2025, uma em cada três pessoas correrá o risco de ficar sem água, forçando ainda mais o processo de migração que já é imenso nas regiões citadas. Por isso, chega a causar desespero o desperdício de água pura que se vê na região do Campeche desde dezembro de 2010. Ainda mais quando se sabe que pelo menos 25 mil pessoas no mundo morrem, por dia, por conta da falta ou da má qualidade das águas.

 

No sul da ilha de Santa Catarina, que parece ser a bola da vez dos empreendimentos, desde o final do ano passado que começaram a pipocar novas construções. Mas nada dentro dos limites estabelecidos pelo plano diretor. Alguns dos condomínios, que chegam a ter dezenas de apartamentos, passam do número legal de andares, burlando a lei com andares subterrâneos e os famosos “áticos”. Alguns deles são em cima das dunas, o que mais tarde pode vir a ser um risco para os próprios moradores. Caso não saibam, as dunas são espaços fugidios, que se movimentam e que protegem as costas marítimas.

 

Muitos destes empreendimentos decidiram aplicar a “lei de Gerson”, levando vantagem. Assim, estão cavando o chão para construir subsolos que devem abrigar garagens, ganhando assim um andar a mais, sem aparentemente desrespeitar o plano diretor. Para isso, precisam drenar a água do lençol freático que, no Campeche, fica praticamente a flor da terra. O sul tem um dos lençóis mais fecundos, capaz, inclusive, de abastecer a região, como acontece atualmente. No Campeche, a água vem da Lagoa do Peri e do aqüífero local. Neste momento, enquanto o leitor passa os olhos por este texto, pelo menos três empreendimentos estão drenando água sem parar, 24 horas, o que significa em torno de 130 mil litros de água pura cada um.

 

Especialista já advertiram que o rebaixamento de lençol freático pode trazer muitos efeitos negativos para um lugar como o Campeche, que se abastece deste lençol. Esse tipo de ação pode causar sérios problemas para todos os que vivem neste espaço geográfico, tais como: redução da umidade média dos terrenos em volta, provocando a perda da exuberância dos jardins com flores e árvores podendo até secar; perda da vitalidade da vegetação de grande porte que se utiliza da água do lençol; afundamento de terrenos em volta da obra e rachaduras nos pavimentos. Além disso, como as obras estão próximas do mar, a água que escorre 24 horas, caminha para o oceano e depois volta junto com a água do mar, provocando a salinização da água do aqüífero, destruindo a capacidade de abastecimento. É coisa muito séria.

 

O Conselho Popular do Núcleo Distrital do Campeche – que reúne cerca de 10 entidades - com a parceria do Movimento Saneamento Alternativo e Núcleo Distrital do Pântano do Sul já foi à Procuradoria do Ministério Público Federal, ao Ministério Público Estadual e à Polícia Ambiental. Já encaminharam documento pedindo explicações à Casan (Companhia de Água) e a vários órgãos de meio ambiente locais e eestaduais. Até agora não obtiveram qualquer retorno. Silêncio total. A drenagem das águas subterrâneas acontecem desde dezembro, jorrando milhões de litros de água para o mar afora. A busca por explicações e a falta delas tem levado os moradores a um quase desespero, pois não dá para admitir um desperdício desta magnitude enquanto tanta gente sofre com a falta da água.

 

Estudos disponíveis na rede mundial de computadores dão conta de que a falta de água no mundo pode afetar, inclusive, a produção de comida, pois a agricultura precisa da água potável numa porcentagem que pode chegar até a 90%, o que significa que o gerenciamento dos recursos hidrícos não pode ficar ao bel prazer de empreendimentos gananciosos que, em nome de uma vista maravilhosa para o mar, oferecida a poucos privilegiados, provocam a destruição de toda uma região.

 

Em Santa Catarina, o novo secretário de Estado do Desenvolvimento Econômico Sustentável, Paulo Bornhausen, tomou posse no dia primeiro de março dizendo que “uma sociedade só alcançará o desenvolvimento sustentável quando seus integrantes, sejam governos ou cidadãos, compreenderem que sustentabilidade é um conceito mais amplo”. A comunidade do Campeche vai cobrar essa postura do secretário na discussão do desperdício desenfreado da água potável. As entidades querem saber onde estão as licenças ambientais e os estudos das construtoras para que esse tipo de drenagem seja feito. Por que as entidades estaduais e municipais não se manifestam? O que o governo estadual pode fazer para evitar a destruição do lençol freático?

 

Em nível de Brasil a situação da água tampouco é diferente. No mês de março, as comunidades ribeirinhas e os indígenas que lutam contra a monstruosa construção da Usina de Belo Monte também receberam a informação de que a Agência Nacional de Águas concedeu outorga de direito de uso de Recursos Hídricos à Norte Energia S.A, responsável pela construção da malfada usina no rio Xingu, no município de Altamira, estado do Pará. Com isso, o governo federal igualmente abre as comportas para a destruição daquela região e para o uso privilegiado das águas. Mau exemplo que vem de cima.

 

Por tudo isso as comunidades do Campeche e do sul da ilha sabem que não é coisa fácil vencer os grandes conglomerados, os megaempreendimentos, que chegam com as bolsas cheias de dinheiro e compram tudo a sua volta, inclusive licenças. Mas, acreditam na mobilização popular e já iniciaram uma grande campanha na região pela proteção dos seus mananciais. Articuladas com as grandes lutas nacionais, as entidades do sul da capital catarinense organizam atividades para o Dia Mundial da Água (22/03), que será celebrado no dia 23 de março (feriado local), numa atividade de esclarecimento e protesto. O Brasil é um dos espaços do mundo que mais água potável tem, mas isso não significa que, em nome do lucro, as empresas possam provocar tamanho desperdício. É hora de as autoridades estaduais se manifestarem já que as municipais simplesmente se omitiram. Vale lembrar que também a Câmara de Vereadores de Florianópolis foi comunicada deste abuso com as águas subterrâneas, mas apenas dois vereadores se manifestaram contra. E, além disso, nada mais foi feito.

 

Por Elaine Tavares - jornalista

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07/03/2011 - Clima e Meio Ambiente - Santa Catarina  

A natureza não é coisa

O povo do sul da ilha de Santa Catarina lutou bravamente para defender seu modo de vida, contra a proposta das mega-empresas de fazer da nossa casa um lugar de baladas e eventos gigantes. Perdemos a batalha, mas isso não significa que a luta esteja acabada. Por aqui pelas terras do sul, há décadas que as pessoas lutam, na tentativa de não deixar a comunidade sucumbir diante do jogo especulativo do capital, que tudo o que toca transforma em mercadoria. Temos bem diante dos olhos o triste exemplo do norte da ilha, onde a praia e a vegetação são apenas moldura para um estilo de turismo que não dá a menor importância para o ambiente.

O turismo milionário de lugares como Jurerê, Canasvieiras, Ingleses e até Balneário Camboriu, está pouco se lixando para o meio ambiente. As pessoas estão ali como poderiam estar em algum lugar em Paris, Nova Iorque, Istambul, São Paulo. O que vale ter é gente bonita, sarada, feita em mesa de cirurgia ou academia, muito champanhe e algum “estimulante” da hora. Em Florianópolis há um programa de televisão apresentado por um garoto chamado Leo Coelho que mostra muito bem isso. Ele só entrevista gente rica, destas que vem para a ilha em busca de lugares VIP como o costão do Santinho ou algum “lounge” no Jurerê. O que se ouve, nas entrevistas, é um festival de bobagem de gente que não tem compromisso algum com os lugares onde estão. Eles são os gafanhotos, aqueles que chegam e devastam. Pouco se lhes dá se o complexo do Santinho impede a comunidade de visitar a praia, não querem saber se regiões inteiras foram destruídas para que pudessem se recostar em voluptuosos sofás à beira de piscinas gigantes, tendo como fundo o mar. A imensidão azul é só cenário. Não desfrutam a praia, não se importam. Mergulham no vinho e no espumante. Esse é seu mundo. Querem o melhor salmão e não querem saber se para que ele chegue às suas mesas é necessário que um homem do mar tenha de enfrentar a fúria das ondas e toda a sorte de infortúnios causados pela poluição que empurra o peixe cada vez mais para longe.

 

As comunidades do sul da ilha não vêem a natureza como uma moldura bonita para suas vidas de plástico. Não. A natureza faz parte do modo de vida. A relação dos homens e mulheres com o mar, as dunas e a restinga, é de simbiose, harmonia, respeito. Cada nódoa no oceano, cada mancha na areia, cada árvore caída é vista com cuidado, investigada, tratada, porque boa parte das pessoas que vivem no sul sabe que suas vidas dependem da qualidade do ambiente. Não distinguem nem separam natureza x humanos. Tudo é uno. Daí que no Campeche, no Pântano, na Solidão, na Armação, e em outras comunidades do sul – e mesmo do norte - há gente que faz do lugar sua morada, seu espaço de vivência. A paisagem, então, não é coisa passageira, moldura de festa ou de lazer. A paisagem é permanente, parte da vida, é coisa viva, cheia de sacralidade. Para as pessoas que desde há décadas vem travando lutas pela qualidade vida no sul da ilha, esse papo de ecologia não é grife, nem moda, é coisa visceral, é a vida mesma, porque não há meio-ambiente, há ambiente inteiro com pessoas, bichos e plantas, tudo integrado.

 

E é porque as gentes pensam como pensam que estão em luta por um Plano Diretor que leve em conta esse jeito de encarar a vida. Querem comunidades planejadas, de casas baixas, vizinhos que se conhecem, com saneamento comunitário, água limpa, bichos circulando pelos caminhos, passarinhos cantando, água do mar clarinha, areia branca, ruas de pedra, procissão, barqueata, festa do divino, quermesse, banda de música passando pelas ruas, bicho de pé, bananeiras no quintal. Por que é tão difícil respeitar isso? Por que os serviçais dos milionários insistem em tentar ridicularizar esse modo de vida? Afinal, são estas pessoas que eles chamam de eco-chatos, odaras e que tais, que mantêm este espaço geográfico ainda capaz de se prestar ao turismo. Porque se as praias deixarem de existir tampouco poderá sobreviver a idéia de que aqui é um paraíso.

 

A natureza não é coisa, não é produto nem mercadoria. Ela está viva e atenta. Se destruírem as dunas, a vegetação, a restinga, o mar há de avançar, comendo as casas, os hotéis, os “lounges”, mesmo os mais finos, porque não há dinheiro que compre a fúria do oceano. “Tudo que se faz à terra, se faz também aos filhos da terra”, diz a longínqua e sábia fala indígena. O povo do sul quer viver em harmonia e vai lutar por isso, a despeito de todos os vilões da mídia, das mega-empresas e da municipalidade. Inclusive, a despeito dos vilões mais próximos, que vivem no mesmo espaço, mas que já foram tocados pela sedução do capitalismo.

 

Por Elaine Tavares - jornalista

 

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04/03/2011 - Clima e Meio Ambiente - Santa Catarina  

Comunidades denunciam drenagem de lençol freático na Polícia Ambiental

As entidades do Conselho Popular do Núcleo Distrital do Campeche, Movimento Saneamento Alternativo, Núcleo Distrital do Pântano do Sul e cidadãos de outras localidades, apresentaram nesta quinta-feira, 03, denúncia junto à Polícia Ambiental de SC sobre o caso da drenagem da água do lençol freático que vem sendo feita por algumas construtoras na região do sul da ilha, particularmente no Campeche. Este esgotamento de água, só no empreendimento Campeche Beach Club, está na ordem de 130 mil litros por dia, água pura desperdiçada. Água que configura o aqüífero da planície do Campeche e, que, juntamente com a Lagoa do Peri, sai a água que a comunidade bebe. Logo, o inevitável rebaixamento do lençol freático resultante deste inconseqüente desperdício e mau uso pode se configurar em crime ambiental.                       

 

A polícia ambiental recebeu as entidades e prometeu uma visita ao empreendimento para a verificação das licenças ambientais para o referido esgotamento. Segundo a polícia, mesmo havendo as licenças, a questão é passível de questionamento. Se houver qualquer prejuízo aos direitos coletivos, com laudos gabaritados que o comprovem, ainda assim a obra pode ser instada a parar a drenagem.

 

A comunidade continua sua mobilização na realização destes laudos e promete fiscalizar cada um dos empreendimentos. A água é um bem público e precisa ser preservada.

 

 

Por Elaine Tavares - jornalista

 

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25/02/2011 - Clima e Meio Ambiente - Santa Catarina  

Praia com 300 metros e sete focos de esgotos “PRAINHA em PROTESTO”

Haverá neste fim de semana, domingo 27 de fevereiro de 2011, mais um evento protesto a favor do saneamento básico da Prainha do Farol de Santa Marta. Nos dias 12 e 13 de fevereiro aconteceu o 1º Campeonato de Futebol Feminino do Farol de Santa Marta, categoria mirim e infantil onde foi realizada uma manifestação pacífica e divulgada na imprensa local e estadual.

 

Agora é a vez do Sub-25, jovens de 17 a 25 anos estarão jogando em manifesto pela mesma causa. Será realizada mais uma manifestação com faixa e cartazes para  as autoridades que agora queremos solucionar o problema.

 

A impunidade e a falta de interesse sobre o assunto deixaram a Prainha imprópria para banho e uma ameaça “ao ar livre” a todos que usufruem do espaço. Atualmente são sete focos de esgoto em uma extensão que não chega a trezentos metros.

 

O evento visa chamar a atenção da população e das autoridades para o problema e abrir a discussão para a solução.

 

“Com dois mil metros de cano resolvemos a primeira parte do problema que é coletar o esgoto e tirar da faixa de areia. Num segundo passo seria a implantação das estações de tratamento para tratar o esgoto antes de despejar”. Afirma João Batista Andrade presidente da ONG Rasgamar. “Os córregos pluviais estão sendo usados para despejar o esgoto 'in natura' na Prainha desde o início da década de 80, nossos filhos não podem ir mais a praia”.

 

Segundo Batista, "fomos convidados pelos jovens a organizar um novo manifesto. Eles que tomaram a iniciativa e isso nos gratifica muito, pois sem envolvimento comunitário a solução fica difícil".

 

Um terceiro evento está sendo alinhavado para o mês de março com participantes de 35 a 55 anos, todos pescadores do Farol de Santa Marta, que estão se juntando a causa.

 

Será enviado convite especial ao prefeito de Laguna e ao presidente da CASAN para que ambos participem de uma mesa redondo com o Conselho Comunitário do Farol de Santa Marta, afim de tirar a proposta do papel.

 

Saiba mais: sosfaroldesantamarta.blogspot.com 

Imgem:http://1.bp.blogspot.com/_--OUnoZD8-g/S7oNZPA42YI/AAAAAAAAIQA/IY8_tsa_nT8/s400/a+foto+da+prainha-+farol+de+santa+marta-+SC.jpg




23/02/2011 - Clima e Meio Ambiente - Mundo  

Agroecologia ou agronegócio?

Apesar dos assentamentos agrários (um milhão) realizados no Brasil desde a criação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em 1970, dos quais mais da metade de 2003 para cá, os dados do Censo Agropecuário 2006, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no final de setembro de 2009, reafirmam, no entanto, o velho quadro de concentração fundiária no Brasil.

 

As pequenas propriedades (com menos de 10 hectares) ocupam apenas 2,7% da área ocupada por estabelecimentos rurais, enquanto as grandes propriedades (com mais de mil hectares) ocupam 43% da área total. O quadro de desigualdade é ressaltado pelo fato de as pequenas propriedades representarem 47% do total de estabelecimentos rurais, enquanto os latifúndios correspondem a apenas 0,9% desse total.

 

A concentração e a desigualdade podem ser comprovadas pela aferição do Índice de Gini da estrutura agrária do país. Quanto mais perto esse índice está de 1, maior a concentração. Em 2006, o Censo mostra um Gini de 0,872 para a estrutura agrária brasileira, superior aos índices apurados nos anos de 1985 (0,857) e 1995 (0,856).

 

Nos pequenos estabelecimentos (área inferior a 200 hectares) estão quase 85% dos trabalhadores empregados. Embora a soma das áreas dos pequenos estabelecimentos (área inferior a 200 hectares) represente apenas 30,3% do total das áreas, os pequenos estabelecimentos respondem por 84,4% das pessoas empregadas. Os dados também mostram que esses trabalhadores fazem parte da agricultura familiar, cujos 12,8 milhões de produtores e seus parentes representam 77% do total de pessoas ocupadas.

 

Apesar de ocupar apenas ¼ da área, a agricultura familiar responde por 38% do valor da produção (R$ 54,4 bilhões). Mesmo cultivando uma área menor, a agricultura familiar é responsável por garantir a segurança alimentar do país, gerando os produtos da cesta básica consumidos internamente. A agricultura familiar responde por 87% da produção de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 58% do leite, 59% do plantel de suínos, 50% das aves, 30% dos bovinos e, ainda, 21% do trigo. A cultura com menor participação da agricultura familiar foi a soja (16%).

 

As informações do IBGE revelam também como a agricultura familiar é mais eficiente na utilização de suas terras: geram um Valor Bruto da Produção (VBP) de R$ 677/hectare, enquanto que a não familiar gera um VBP de R$ 358/hectare (89% a mais). Geram 15 postos de trabalho/100 ha, enquanto que a não familiar gera apenas 1,7 pessoas/100 ha.

 

Não por coincidência, o aumento observado da devastação das nossas florestas foi maior no Norte e no Centro-Oeste, exatamente onde se deu a expansão da pecuária extensiva, da plantação de soja e das atividades do agronegócio. As exportações de commodities agrícolas transformaram a alimentação em mercadoria, gerando lucros fabulosos sem qualquer preocupação com a necessidade de alimentar as pessoas.

 

Segundo a Organização para as Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), um bilhão de pessoas passa fome no mundo. Ou mudamos a matriz da produção de bens agrícolas, democratizando a terra e priorizando a produção de base familiar, ou estaremos inviabilizando a vida saudável no planeta.

 

A crise mundial do capital aponta para novas perspectivas de mobilização social e afirmação da agricultura camponesa como estratégica ao desenvolvimento sustentável, onde a Reforma Agrária tenha centralidade, democratizando a vida no campo, gerando empregos, respeitando o meio ambiente, promovendo o ser humano e produzindo alimentos saudáveis que garantam não só a segurança, mas a soberania alimentar do país.

 

Os dados do Censo reafirmam a capacidade de resistência da agricultura familiar, que adota um modo de produção camponês diferente daquele do agronegócio, constituindo-se em uma das alternativas às crises econômicas, sociais, alimentares e ecológicas provocadas pela globalização capitalista.

 

Há necessidade, entretanto, de criação de um programa de incentivos para a organização de associações de agricultores familiares, garantindo o acesso dos camponeses e suas famílias a um sistema público, com a participação dos movimentos sociais. Para a viabilização desse novo modelo agrícola, é preciso acelerar e qualificar a Reforma Agrária e o apoio à agricultura familiar para além da obtenção da terra, do mero assentamento e do acesso ao crédito.

 

É preciso, sobretudo, romper progressivamente com o modelo atual, hegemonizado pelo agronegócio, priorizando a agroecologia e integrando a agricultura camponesa a um novo tipo de desenvolvimento.

 

Por Osvaldo Russo, estatístico, ex-presidente do Incra, é diretor da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan).

 

Fonte: http://www.correiocidadania.com.br